A consolidação do Mercosul, ainda que com deficiências, e o grande peso geográfico e econômico do Brasil, servem de base ao projeto de fazer com que a região seja um ‘‘espaço aberto’’ para sua melhor inserção no mundo. O presidente Fernando Henrique Cardoso contribuiu com a sua cota pessoal, através da amizade desenvolvida com mandatários de países vizinhos, com a negociação que liderou para pôr fim ao conflito fronteiriço entre o Equador e o Peru e com as frequentes visitas aos seus pares.
Convertido em político na maturidade, ao se eleger suplente de senador em 1978 e titular da cadeira quatro anos depois, Fernando Henrique sempre deixou claro que tinha qualificações para ser o chanceler. Chegou a essa posição em outubro de 1992, mas a ocupou apenas por sete meses, chamado que foi para presidir o Ministério da Fazenda e conduzir, com êxito, o plano de estabilização que pôs fim a duas décadas de altas taxas inflacionárias.
A ‘‘diplomacia presidencial’’ é uma característica destes tempos de globalização. Os chefes de governo orientam pessoalmente a política externa, mas em FHC se reconhece uma maior aplicação nessa área, por vocação. Seu governo fortaleceu as posições tradicionais do Brasil em questões internacionais contra ingerências externas e pela solução pacífica dos conflitos. Essa política contribuiu para que se tivesse confiança na diplomacia brasileira, voltada para negar pretensões hegemônicas, inclusive a própria.
O chanceler Luis Felipe Lampreia acredita que apenas agora, com a afirmação da democracia na região, estão maduras as condições para a integração política e econômica da América do Sul. São muitos, porém, os obstáculos. O Plano Colômbia, arquitetado pelo presidente colombiano Andrés Pastrana para combater o narcotráfico, é uma cunha em uma ampla zona da América do Sul. Pastrana tem dito que o seu projeto também contempla programas de desenvolvimento alternativo nas áreas de produção de drogas e que contribuirá para a paz com as organizações guerrilheiras. Esse país receberá ajuda militar dos Estados Unidos e o Plano Colômbia conta com irrestrito apoio do presidente Bill Clinton.
Os observadores avaliam que esse plano foi o tema mais polêmico do encontro dos 12 presidentes, realizado quinta e sexta-feira em Brasília, como o foi nas conversações prévias mantidas pelos embaixadores sul-americanos convocados para redigir a Declaração de Brasília, firmada pelos integrantes da cúpula. Teme-se a radicalização da guerra na Colômbia e o seu impacto nos países vizinhos. Brasil e Equador já decidiram reforçar os efetivos policiais e militares na fronteira com a Colômbia, embora o plano de Pastrana só vá ser deflagrado em janeiro.
As críticas à interferência dos Estados Unidos não ocultam o fato de que a produção e exportação de drogas ilícitas, com a sua carga de violência, afetam o desenvolvimento da América do Sul e as suas relações externas e internas.
O Brasil pretende impor a cláusula democrática à comunidade sul-americana, as mesmas que já regem o Mercosul. A Colômbia vive sob constante ameaça da guerra e episódios recentes no Equador, Paraguai e Peru demonstram que a democracia ainda deve ser fortalecida em alguns países da região. Os mais exigentes chegam a colocar a Bolívia e a Venezuela em sua lista de democracias frágeis, por terem ex-golpistas como presidentes.
No aspecto econômico, os dois blocos sul-americanos – Mercosul e Comunidade Andina de Nações – apresentam discrepâncias internas que os impedem de consolidar-se como uniões aduaneiras e, inclusive, como áreas de livre comércio pleno.
Diante das dificuldades, o governo brasileiro propõe, como caminho básico para concretizar o ‘‘espaço sul-americano’’, a construção de uma infra-estrutura de integração, explicitada em canais de desenvolvimento conformados por estradas, hidrovias, gasodutos e linhas de transmissão elétrica. Essa estratégia foi desenvolvida, em 1996, por Eliézer Batista da Silva, o dirigente que conduziu a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, transformando-a em uma das maiores empresas mineradoras do mundo. Eliézer, que foi secretário de Assuntos Estratégicos, defende que o transporte marítimo tem um papel decisivo na integração.
As dificuldades próprias do projeto de consolidação da comunidade sul-americana, que supõe uma relativa autonomia em relação a Washington, junta-se à opção oposta, a associação comercial com os Estados Unidos, que parece cada dia mais atrativa devido ao crescimento econômico do México. O produto interno bruto desse país, sócio pobre do Canadá e dos Estados Unidos no Tratado de Livre Comércio da América do Norte, já se aproxima, em termos absolutos, do PIB do Brasil, país com uma população 60% maior.
- MARIO OSAVA é jornalista no Rio de Janeiro (IPS)

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