A Tarefa de construir-se
Gabriel Perissé
‘‘O professor que se economiza, que se esquiva, que não entrega tudo o que tem e não se entrega totalmente, perde-se. Perde-se e perde o que aprendeu.’’
Somos o único animal terrestre capaz de inventar o futuro. E inventar o futuro é, concretamente, inventar-nos a nós mesmos. A filosofia personalista deste século soube definir a vida humana como um quehacer (palavra tantas vezes empregada por Julián Marías neste sentido vitalista), como uma tarefa, um trabalho de autoconstrução. Um trabalho em que nos reinventamos.
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, define pela voz de Riobaldo o estado de formação contínua em que nos encontramos: ‘‘Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior.’’ É tarefa especificamente humana (tarefa moral e estética), construir o nosso próprio perfil, nossa própria alma. Moldar-nos à imagem e semelhança do que seremos.
Viver é escrever nossa própria biografia. O papel desempenhado pela educação formal nessa tarefa (quase que literária) de construção é inegável. Influenciam-nos a escola que frequentamos, os professores que ouvimos, os livros que lemos. Contudo, somos fundamentalmente aquilo que fazemos de tudo o que ouvimos e lemos. Do ambiente que frequentamos. Do tempo que investimos e que uma instituição e seus professores investem em nossa formação.
A responsabilidade dos formadores é inegável, mas irrenunciável é também o dever de quem se forma. Temos o dever de transformar cada hora de aula em hora construtiva. Construindo personalidade. Construindo futuro. Construindo diálogo. Construindo verdades. ‘‘Só guardamos o que demos’’, escreveu Fernando Pessoa – e este poderia ser o lema dos professores. O professor que se economiza, que se esquiva, que não entrega tudo o que tem e não se entrega totalmente, perde-se. Perde-se e perde o que aprendeu.
E qual seria o lema do estudante? ‘‘Só recebemos o que buscamos.’’ O aluno pode estar oficialmente presente na sala de aula, no dia do exame, mas se não estiver intelectualmente ativo, verá sem enxergar, falará sem ouvir, ouvirá sem entender.
Quando Cristo, Mestre por excelência, advertia tantas vezes – ‘‘Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!’’ – alertava para a necessidade de abrir-se para o conhecimento. O conteúdo dos saberes permanece intacto e inerte enquanto não o despertamos com o nosso interesse, com a nossa audição purificada dos ruídos da pressa, da ambição e do comodismo.
O ato de ensinar e aprender é um ato único, realizado pelo professor e pelo aluno simultaneamente. É uma verdadeira arte do encontro, que exige esforço teatral – teatral no sentido mais construtivo da palavra. Teatro não é falsidade – é realização máxima da potência criadora. Somos artistas da nossa existência. Protagonistas que interpretam o melhor de nós mesmos, e que sabem inventar, improvisar. Atores que improvisam não perdem tempo. Millôr Fernandes, num momento de brilhantismo, escreveu que quem mata o tempo comete um suicídio. Pensando em sentido positivo, quem aproveita cada minuto da vida renasce, reconstrói-se, reinventa-se.
Quantas vezes falam-nos de criatividade para ganhar dinheiro, subir na vida, vencer no mundo globalizado, competitivo. Maior e mais exigente criatividade é aquela que nos faz ser nós mesmos! Ser sem medo. Os Cinco Medos de que falam os budistas (medo da morte, da miséria, da desonra, da loucura e do ridículo) só podem ser vencidos por uma pessoa criativa, capaz de transformar esses medos em oportunidades de aprender. E, para aprender, é preciso ser corajosamente humilde.
A humildade nos ensina a ouvir. Se o pior cego é o que não quer ver, pior cego ainda é o que não quer ouvir. Aprender é ouvir, mesmo sem ver. É acreditar. Aristóteles disse o óbvio: para aprender é preciso acreditar. Acreditar na própria inteligência. Acreditar na verdade. Acreditar nos mestres que encontramos em nosso caminho. Acreditar que nada é impossível – que o melhor não é impossível.
- GABRIEL PERISSÉ é professor da Universidade de Santo Amaro (SP)

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