A pouco mais de um ano das eleições presidenciais, as pesquisas de opinião pública começam a delinear um quadro que certamente sofrerá mutações, mas não deixa de ser um retrato do momento. Qualquer análise deve levar em conta um ponto fundamental: a insatisfação da sociedade com o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Todas as pesquisas mostram o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, à frente. No bloco seguinte, pode-se dizer que há um empate técnico entre o governador de Minas Gerais, Itamar Franco; o governador do Rio, Anthony Garotinho e o ex-ministro Ciro Gomes. O ministro José Serra, candidato do PSDB, aparece num patamar mais abaixo. Se as eleições fossem hoje, certamente Lula estaria no segundo turno. Difícil é prever quem seria o outro candidato. No entanto, como ainda há muita água a passar por baixo da ponte, nada pode ser desprezível neste momento, até mesmo uma vitória do candidato governista.
A questão maior é saber até que ponto FHC conseguirá reverter esta situação de dificuldade que enfrenta, seja no âmbito administrativo ou político. A partir de agora sua base de sustentação política, caso não haja qualquer perspectiva de mudança em curto prazo, poderá se fragmentar e deixá-lo numa situação de extrema dificuldade, uma vez que, segundo o manual da lei de sobrevivência, a tendência dos que hoje o apóiam é migrar para onde possam vislumbrar melhores chances de vitória. O que menos se pode exigir da classe política é exatamente a fidelidade. Sem sustentação e incapaz de modificar o panorama econômico, se porventura vier a se agravar, serão poucos os parlamentares ou governadores que permanecerão fiéis à sua orientação.
A imagem, tanto do governo como do presidente FHC, está bastante desgastada. Os escândalos políticos envolvendo o Congresso – e por extensão, a base aliada do governo; a crise econômica internacional que reflete necessariamente no Brasil; o desemprego crescente e, mais recentemente, o episódio do apagão, têm contribuído sobremaneira para jogar a popularidade do presidente aos piores níveis deste 1994.
Mas os números do instituto Datafolha, por exemplo, mostram que o ministro Serra, com 7% das intenções de voto, pode tranquilamente chegar a 15 ou 16% quando as campanhas forem postas na rua, e chegar ao segundo turno. Ora, o excesso de candidatos fará com que os votos oposicionistas se diluam, favorecendo, no caso, o candidato apoiado pelo Planalto.
Se Lula permanecer em primeiro lugar com 30% e o tucano em segundo, digamos com 16%, a disputa no segundo turno será outra eleição e com características totalmente diferentes do primeiro turno. Para o governo, o melhor adversário é exatamente o candidato do PT. As eleições anteriores mostram que Lula ainda amedronta uma boa parcela da sociedade brasileira. Tanto é verdade que a estratégia petista tem sido diferente das disputas passadas, com uma postura moderada e um discurso que não causa arrepio nas classes mais conservadoras.
A situação, por sua vez, tentará identificar o PT com o Movimento dos Sem Terra (MST) e o discurso, por sinal já cansado, de que as oposições, justamente por chegarem diluídas, não terão base de apoio nem no Congresso nem perante a sociedade.
Por sua vez, o maior dilema dos petistas é mostrar que, uma vez no poder, serão capazes de praticar as teorias de palanque. Dentro deste mesmo retrato, é possível enxergar que os dois ícones petistas, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e o governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, começam a dar sinais que governar é mais difícil que criticar.
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba
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