A sucessão em Curitiba - René Ruschel
A sucessão em Curitiba
Faltando mais de um ano para as eleições municipais, a disputa sucessória em Curitiba começa ter suas primeiras peças entabuladas neste intrincado jogo de paciência. Trata-se, na verdade, de uma gigantesca operação de guerra onde os mínimos detalhes são fundamentais e o menor erro pode ser fatal para uma das partes, principalmente porque o peso eleitoral da capital é sempre decisivo em qualquer pleito. A principal candidatura é, sem dúvida, a reeleição do prefeito Cassio Taniguchi, que traz a reboque como principal cabo eleitoral o governador Jaime Lerner, ambos do PFL.
A grande questão é saber até que ponto os partidos que hoje dão sustentação ao grupo lernista estarão dispostos a continuar sendo mero coadjuvantes; ou então, tentar vislumbrar a lógica que seguirá o PMDB, principal partido de oposição, dividido entre os que seguem a liderança do senador Roberto Requião e os que buscam ocupar espaços estratégicos para dar uma espécie de sangue novo à sigla; além do PSDB, que numa composição tanto poderá encabeçar uma chapa como aceitar um papel menor, desde que atenda a seus interesses futuros. De concreto e verdadeiro está que, tanto o PFL como o PMDB necessariamente deverão lançar candidaturas próprias: o primeiro na tentativa de manter-se instalado no poder e o segundo visando a sobrevivência como oposição - caso não seja vencedor.
Mesmo nas hostes situacionistas nem tudo são flores. A possível reeleição de Taniguchi pode criar problema ao governo do Estado, pois ele teria de renunciar à prefeitura para disputar a cadeira do Palácio Iguaçu, o que, por si só, seria um forte argumento da oposição para criticá-lo. Caso não renuncie a permaneça prefeito, Taniguchi abriria caminho para a candidatura do deputado federal e ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, hoje um desafeto no grupo ao qual pertence.
Notícias de bastidores veiculam a possibilidade de um acordo PFL-PSDB, onde os tucanos apoiariam Taniguchi em troca de apoio ao senador Alvaro Dias para governador nas próximas eleições. Neste caso, Greca passaria a ser uma espécie de fiel da balança, embarcando noutra canoa que lhe garantisse ajuda necessária para 2002, haja vista que ele, Greca, é também candidato declarado. Dentre os partidos aliados, o PTB ensaia a candidatura de deputado estadual Beto Richa e o PPB ameaça entrar na disputa caso não seja aquinhoado com a vice na chapa majoritária.
Na oposição, o PMDB tem como certo que lançará candidato. A questão é saber quem. De um lado, o senador Roberto Requião tenta impor um nome fiel à sua liderança, justamente visando a eleição de 2002, quando tentará retornar ao Palácio Iguaçu. De outro, um grupo liderado pelo deputado estadual Gustavo Fruet começa a ocupar espaços e pode vir a ser uma ameaça aos planos de Requião.
O que se antevê é que qualquer cisão interna poderá levar o PMDB a um profundo desgaste político, haja vista que a própria sigla perdeu muito do estigma da resistência que desfrutou no passado, vivendo hoje muito mais do personalismo de alguns de seus membros. O PT, por sua vez, vive o eterno dilema entre acompanhar o bloco das oposições num leque suprapartidário ou lançar a candidatura própria tentando fortalecer o partido; mas, sabidamente, sem nenhuma expectativa em ser o vencedor.
A grande incógnita é novamente o PSDB. O senador Alvaro Dias aposta nestas eleições todas as fichas para seu retorno ao governo do Paraná, e daí, pode ser que os meios justifiquem os fins. Parece muito pouco provável que o PFL, com seu ambicioso projeto de poder, resolva abrir mão de uma candidatura a governador em 2002 em troca do apoio à disputa em Curitiba. A grande jogada dos tucanos seria atrair um nome de peso para a sigla, para marcar presença nestas eleições. Para, então, na pior das hipóteses, vender caro seu apoio no segundo turno. Aliás, esta será a grande sacada de todos os partidos.
Pois é justamente neste terreno ardiloso que se travará o grande combate. Até lá, muita água deverá rolar e muitos acordos de bastidores serão sacramentados entre quatro paredes. O lamentável em toda esta história, é que o povo seja chamado apenas para votar, ou seja, sacramentar decisões já tomadas pelas cúpulas partidárias. Aqueles que deveriam ser os maiores beneficiados, acabam se transformando em meros espectadores, afinal, povo e voto são apenas dois detalhes desta complexa engenharia chamada política.
- RENÉ RUSCHEL é economista em Curitiba





