A submissão do
Fundo Monetário
Internacional

Antonio Delfim Netto
Num artigo publicado pela Folha de São Paulo no dia 14 de abril, o economista Joseph Stiglitz, que até bem pouco tempo ocupou uma das vice-presidências do Banco Mundial, fez severas críticas à atuação do Fundo Monetário Internacional durante a crise que afetou a economia asiática em 1998 e parte de 1999. Stiglitz é um profissional muito respeitado, que participou do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Clinton e que tem dado contribuição importante ao estudo do comportamento dos mercados. Sua opinião, portanto, quanto ao papel desempenhado pelo FMI, deve ser considerada com muita atenção.
Ele tem razão quando diz, por exemplo, que o Fundo vem se comportando como uma espécie de ‘‘auditor terceirizado’’ do Tesouro dos EUA. Em outros tempos tive longas discussões com o pessoal técnico e a própria direção do FMI e eles ainda mantinham um certo grau de independência em relação ao governo americano. Mas, atualmente, em tempos de globalização e de pensamento hegemônico, já não há praticamente resistência. O FMI interfere na economia dos países quando estes têm dificuldades e, para receber assistência, devem naturalmente atender a certas condições. A crise que atingiu os países asiáticos é uma situação típica, vivida por Stiglitz quando era vice-presidente do Banco Mundial. Quando o sistema financeiro da Coréia entrou em dificuldades, a atitude dos organismos internacionais foi de tal ordem que mereceu o comentário de que o FMI fez em quatro semanas aquilo que o Departamento de Estado dos EUA não tinha conseguido em 40 anos! E o que era ‘‘aquilo’’? Era simplesmente obrigar os coreanos a abrir totalmente sua economia, facilitando a venda de suas indústrias e bancos a empresas e bancos americanos. A Coréia balançou, fingiu que aceitava o programa do Fundo, mas conseguiu resistir. No primeiro acordo, se exigia que a Coréia, atolada em dificuldades, realizasse um superávit fiscal, a qualquer custo. Os economistas coreanos foram um pouco mais espertos e resistiram. Em pouco mais de 40 dias o Fundo retirou a exigência, reconhecendo que a Coréia tinha escolhido o caminho que mais consultava os seus interesses nacionais. Na verdade se evitou uma tragédia, o que mostra que onde existe um governo que sabe defender a economia do país, o FMI não consegue impor a receita recessiva que muitas vezes apenas prolonga desnecessariamente a crise social.
Exatamente porque seus economistas não jogam no time dos neocolonizados, a Coréia recuperou rapidamente as condições para voltar a crescer, ampliando as exportações e recompondo suas reservas. Eles não aceitaram passivamente as exigências do FMI porque aprenderam que o Fundo, hoje, não tem independência para formular seus programas na medida em que seus objetivos se confundem com os interesses empresariais e financeiros protegidos, com a habitual competência, pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Com a ascensão do Sr. Larry Summers à chefia do Departamento, esses fatos estão, a cada dia, se tornando mais transparentes. Somente nossos neocolonizados economistas fingem não perceber...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB/SP
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