A sorte lançada - Rubem Azevedo Lima
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segunda-feira, 26 de abril de 1999
Rubem Azevedo Lima 
As perspectivas políticas do País, ante as hipóteses de desfecho da CPI dos Bancos, mais os resultados da economia, nesses meses do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, prenunciam-se explosivas para o governo. É difícil definir qual desses dois fatores - a CPI ou a economia - cause maiores preocupações.
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, a dívida externa do Brasil era de US$ 146 bilhões. Hoje é de US$ 390 bilhões. A dívida interna, de US$ 64 bilhões, chegou a US$ 212 bilhões. Do final do governo Sarney, em janeiro de 1989, a dezembro de 1997, foram gastos em juros, serviços e amortização da dívida - que, naquele ano, era de US$ 115 bilhões - US$ 216 bilhões, mais da metade paga pelo atual governo.
Apesar disso e dos US$ 72 bilhões das privatizações de estatais, o País deve ao exterior cerca de US$ 400 bilhões! Somados à dívida interna, são US$ 610 bilhões! Cada um dos 165 milhões de brasileiros, inclusive os quase cem milhões de pobres, deve, hoje, US$ 3.697, ao nascer. Mais US$ 100 do que a renda per capita de 1995.
O Brasil vendeu ativos históricos, não fez investimentos públicos e cortou despesas sociais. O ex-governador Ciro Gomes acusa o governo de manipular superávits, para agradar ao FMI. Tal quadro - sem falar no desemprego, que, sob FHC, chegou a 19,9%, só na grande São Paulo - configura a ganância de nossos credores, de um lado, e a prática de uma economia antinacional, do outro.
No caso da CPI - cujos maiores destaques iniciais foram a descoberta de papéis comprometedores para a imagem de Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central, que seria interrogado ontem na Comissão - os fatos também assustam. Do exterior, Fernando Henrique Cardoso defendeu Lopes, enfaticamente. Depois, com a divulgação de novos papéis, o presidente baixou o tom dessa defesa, acentuando que antes falara em tese e sem maiores informações sobre a CPI. Essas ressalvas preocuparam ainda mais os brasileiros. Fora do País o presidente não tem informações precisas sobre o que nele se passa, mas ainda assim fala sobre o que desconhece?
Tais fatos provavelmente diminuirão o prestígio presidencial, antes da conclusão dos trabalhos da CPI. Esta, ao contrário, com as descobertas que vem fazendo, e sob os refletores das tevês, tende a ganhar maior apoio da opinião pública. É uma situação difícil para Fernando Henrique Cardoso, que já é visto, por muita gente, como alguém que não zela pelo patrimônio nacional nem combate, quanto devia, a pobreza do País.
A CPI deve entrar em área ainda mais turbulenta do que a de irregularidades em pequenas e prósperas consultoras financeiras. Da pauta das investigações consta o compromisso de apurar se os grandes bancos - alguns estrangeiros, credores do País e de poderosas empresas nacionais - sonegaram Imposto de Renda, apesar dos altos lucros obtidos em 1998.
É pura dinamite. A essas alturas, porém, é impossível parar a CPI, cujas investigações, como a de outras, foram roladas com a barriga pela maioria governista em 1998. Agora é tarde. Os brasileiros parecem esperar que o País faça uma boa faxina em seus porões. A sorte do Brasil e do presidente está lançada. Mas nosso Rubicão é um imenso, profundo e tormentoso rio poluído.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília


