As perspectivas políticas do País, ante as hipóteses de desfecho da CPI dos Bancos, mais os resultados da economia, nesses meses do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, prenunciam-se explosivas para o governo. É difícil definir qual desses dois fatores - a CPI ou a economia - cause maiores preocupações.
Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, a dívida externa do Brasil era de US$ 146 bilhões. Hoje é de US$ 390 bilhões. A dívida interna, de US$ 64 bilhões, chegou a US$ 212 bilhões. Do final do governo Sarney, em janeiro de 1989, a dezembro de 1997, foram gastos em juros, serviços e amortização da dívida - que, naquele ano, era de US$ 115 bilhões - US$ 216 bilhões, mais da metade paga pelo atual governo.
Apesar disso e dos US$ 72 bilhões das privatizações de estatais, o País deve ao exterior cerca de US$ 400 bilhões! Somados à dívida interna, são US$ 610 bilhões! Cada um dos 165 milhões de brasileiros, inclusive os quase cem milhões de pobres, deve, hoje, US$ 3.697, ao nascer. Mais US$ 100 do que a renda per capita de 1995.
O Brasil vendeu ativos históricos, não fez investimentos públicos e cortou despesas sociais. O ex-governador Ciro Gomes acusa o governo de manipular superávits, para agradar ao FMI. Tal quadro - sem falar no desemprego, que, sob FHC, chegou a 19,9%, só na grande São Paulo - configura a ganância de nossos credores, de um lado, e a prática de uma economia antinacional, do outro.
No caso da CPI - cujos maiores destaques iniciais foram a descoberta de papéis comprometedores para a imagem de Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central, que seria interrogado ontem na Comissão - os fatos também assustam. Do exterior, Fernando Henrique Cardoso defendeu Lopes, enfaticamente. Depois, com a divulgação de novos papéis, o presidente baixou o tom dessa defesa, acentuando que antes falara em tese e sem maiores informações sobre a CPI. Essas ressalvas preocuparam ainda mais os brasileiros. Fora do País o presidente não tem informações precisas sobre o que nele se passa, mas ainda assim fala sobre o que desconhece?
Tais fatos provavelmente diminuirão o prestígio presidencial, antes da conclusão dos trabalhos da CPI. Esta, ao contrário, com as descobertas que vem fazendo, e sob os refletores das tevês, tende a ganhar maior apoio da opinião pública. É uma situação difícil para Fernando Henrique Cardoso, que já é visto, por muita gente, como alguém que não zela pelo patrimônio nacional nem combate, quanto devia, a pobreza do País.
A CPI deve entrar em área ainda mais turbulenta do que a de irregularidades em pequenas e prósperas consultoras financeiras. Da pauta das investigações consta o compromisso de apurar se os grandes bancos - alguns estrangeiros, credores do País e de poderosas empresas nacionais - sonegaram Imposto de Renda, apesar dos altos lucros obtidos em 1998.
É pura dinamite. A essas alturas, porém, é impossível parar a CPI, cujas investigações, como a de outras, foram roladas com a barriga pela maioria governista em 1998. Agora é tarde. Os brasileiros parecem esperar que o País faça uma boa faxina em seus porões. A sorte do Brasil e do presidente está lançada. Mas nosso Rubicão é um imenso, profundo e tormentoso rio poluído.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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