A sorte do PMDB está lançada
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de janeiro de 1997
Gaudêncio Torquato 
As primeiras consequências geradas pela disputa em torno das presidências da Câmara e do Senado começam a aparecer no horizonte esfumaçado. Mesmo que o líder do PMDB, Michel Temer, consiga chegar à presidência da Câmara, o partido-símbolo da luta contra o regime autoritário estará cada vez mais longe da meta da unidade. O PMDB tornou-se um arquipélago, com ilhas de diferentes formatos, onde a chama partidária perde o brilho por conta de caciques que pretendem sobreviver, a qualquer custo, como Quércia, Paes de Andrade e Jader Barbalho.
A crise do PMDB alimenta o sonho hegemônico do PSDB. Sabe-se que os tucanos apostam no racha peemedebista para atrair cerca de 20 parlamentares e se tornar o maior partido nacional. A meta, tocada com muito cuidado, estará sendo implementada, logo após as eleições para as mesas das casas congressuais.
Desta forma, a aliança do PMDB com o governo passa por uma grande reformulação interna, com desdobramentos que incluem até a criação de uma nova sigla partidária. Com o PMDB menor, PSDB e PFL alimentam o sonho hegemônico de comandar as estruturas das comissões na Câmara e no Senado. Com a Presidência da República, a vice e o comando das comissões, estrutura-se um sistema de poder capaz de abrir horizontes políticos por um espaço maior que oito anos.
Por isso mesmo, não interessa ao governo, nesse momento, criar embaraços maiores ao partido. Quer deixar a ressaca das eleições nas duas Casas passar para agir. Ou alguém duvida que o governo não tem cacife para cooptar parlamentares? Se não o faz de modo tão massacrante é porque teme levantar mais poeira no cenário já tão conturbado.
O PMDB tornou-se
um arquipélago,
com ilhas de
diferentes formatos
Além de esconder o jogo hegemônico, as disputas em torno das presidências das duas Casas legislativas sinalizam o personalismo que estiola a imagem do PMDB. Por falta de uma grande liderança nacional, disputam poder os senadores Iris Rezende, Jader Barbalho e José Sarney, este último potencial candidato do partido à presidência da República. Eles, juntos, comandam uma bancada que soma cerca de 20 nomes, número suficiente para desestabilizar qualquer projeto. Significa concluir que a emenda da reeleição está a depender da bancada peemedebista comandada pelos senadores do partido.
Michel Temer é considerado a tábua de salvação da entidade, na medida em que se transformou no melhor símbolo da coesão interna. É o que mais agrega hoje e o parlamentar que se adapta perfeitamente ao figurino de alta categoria que o partido tem a oferecer. Sobre ele, porém, paira a espada ameaçadora fincada pelos interesses caciquistas dos senadores.
A crise do PMDB é o alimento de candidaturas como a de Wilson Campos, que resiste aos contratempos; de Prisco Viana, do PPB, que aposta no voto de protesto; e até a ressurreição da candidatura de Inocêncio Oliveira - ele que nunca abandonou a meta de voltar a dirigir a Câmara. Há um paradoxo em todo esse processo: para conquistar mais espaços de poder, o PMDB ameaça perder o poder que já tem. Essa é a angústia do líder Michel Temer, o quadro mais preparado do partido e uma de suas grandes esperanças.


