A idéia de o povo deseleger os que elegeu não é nova, mas continua como fórmula mágica e salvadora para sanear a vida pública brasileira e expurgar, a qualquer tempo, as impurezas do sistema. Dessa forma, por via de referendos populares, o eleitorado deselegeria aqueles que elegeu e que demonstraram não servir. No futebol, em certas situações de um campeonato, diz-se morte súbita, e na política o modelo se adequaria perfeitamente. Agora esse movimento rebrota, por iniciativa do jurista Fábio Konder Comparato advogado de acusação no processo que cassou o presidente Fernando Collor e parece que vem com força, porque conta com o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil e outros juristas de renome, como o paranaense René Dotti, e destacados cientistas políticos do nível de Alexsandro Eugênio Pereira, Benjamin Bogo e outros mais. Se o povo elege, cabe-lhe deseleger, porque os parlamentos que têm essa prerrogativa, na verdade outorgada pelo mesmo povo dificilmente cassam os seus membros. Quando isso acontece é, geralmente, pelo delito de corrupção, e mesmo assim só quando tal chega ao conhecimento do público e se converte em escândalo. E aí, ironicamente, é o poder desagregador da execração pública e portanto uma força ainda emanada do povo que entra em ação. Mas ainda não é o direto recall, palavra inglesa que quer dizer chamar de volta, para reavaliação, e que é agora empregada para o caso do referendo proposto que afastaria subitamente não apenas os corruptos mas também os inoperantes. As Constituições de São Paulo, de 1892, e do Rio Grande do Sul, de 1897, já previam o recall, mas ele nunca foi aplicado. O jurista René Dotti lembra que tramitam no Congresso duas propostas, que, se aprovadas, permitirão a revogação de mandatos. Se a opinião pública for se levantando, até converter essa fórmula em irreversível, certamente os parlamentos acabarão por ceder. Por ora, estão na mira os cargos de presidente da República, deputados federais e estaduais e senadores, mas se uma lei nesse sentido for aprovada, deverá abranger também prefeitos e vereadores. A idéia é magistral e põe fim a todos os outros remédios apontados, porque este é fatal e manteria o Brasil sempre em estado de referendo, já que abarcaria também os Estados e municípios. Seria um permanente festival de cidadania. Implantado esse regime, todos os eleitos se aprumariam e ficariam atentos e operosos, para não serem colocados no paredão. Um presidente da República não ficaria três anos e meio ''cozinhando o galo'', para só fazer alguma coisa no final do mandato e no período pré-eleitoral, como Lula faz agora. Se o político é malandro (e acrescente-se incompetente), como diz o jurista Benjamin Bogo, é porque ele sabe que pode ser. Daí aproveita a vida de nababo. O recall se apresenta como fórmula salvadora, capaz de colocar um fim na bandidagem política, que tanto revolta a machuca a população.

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