A solução é a racionalização da energia
A ameaça do apagão despertou nos brasileiros um misto de angústia, revolta e incerteza que há muito não se via neste País. Antes de mais nada, é preciso ficar claro que apagão não é solução, mas um atalho para o caos. Não é hora de procurar culpados, de fazer diagnósticos. É hora de buscar saídas racionais para a crise.
A primeira verdade é que a racionalização do consumo, o combate ao desperdício e o investimento em novas fontes de geração de energia são as soluções menos traumáticas e a resposta que a população espera para superar a crise.
Punir o consumidor por utilizar energia, ainda que ele o faça com economia, é o pior remédio. Sobretaxa e corte de luz são medidas que não têm a menor chance de produzir a redução em escala que se espera no consumo de energia. Ao contrário, são propostas para deixar a população ainda mais irritada.
Não vejo muita gente propondo medidas racionais para solucionar a crise. E hoje, mais do que nunca, é preciso ter serenidade para não jogar o País no beco do apagão.
A mudança de fluxos de trabalho, com jornadas em turno contínuo em setores mais flexíveis e a compensação antecipada de folga na sexta-feira à tarde ou na segunda-feira pela manhã podem produzir resultados muito mais positivos na economia de energia.
Para começar, é preciso ter a população como aliada no esforço para a contenção do consumo. Há 12 anos, quando implantamos a coleta seletiva de lixo em Curitiba, não fixamos nenhum tipo de punição. A população foi estimulada a participar do projeto e hoje 70% do lixo da cidade é separado. Mais que isso: hoje, 202 cidades do Paraná já fazem a mesma coisa.
A racionalização do uso de energia pode ser conseguida rapidamente. E sem ameaças. Em lugar de punições, prêmios. Por exemplo: a cidade que reduzisse o consumo acima de um determinado nível ganharia obras sociais, como creches, postos de saúde e escolas. Para o Estado, a energia poupada e exportada para outros centros renderia compensação equivalente ao ICMS sobre a carga repassada. E assim por diante.
A co-responsabilidade deve prevalecer sobre decisões impostas a partir dos gabinetes da burocracia. Consciente de que o desperdício brasileiro de quase 10 mil megawatts é a maior fonte imediata de energia, o Paraná adotou medidas que já reduziram de 16% para 7% a taxa de perda de energia no Estado.
A implantação, em junho do ano passado, de um programa de substituição de lâmpadas ultrapassadas por outras mais modernas, de menor consumo e melhor resultado, está gerando economia permanente no âmbito da administração pública do Estado. A adoção do turno único continuado significou economia de 17% de energia. Somadas as duas medidas, a redução chega a 41% em alguns prédios públicos.
Adotadas em indústrias, lojas, shopping centers, escritórios e residências, as medidas espontâneas de contenção do consumo podem produzir resultados concretos muito mais expressivos que a burrice do apagão. Afinal, antes ou depois do período de desligamento, a tendência do consumidor será sempre a de aproveitar ao máximo a disponibilidade de energia.
O Paraná investiu em conservação de energia, reduzindo a taxa de desperdício de 16% para 7%. O Procel, adotado pelo Ministério de Minas e Energia, foi criado aqui, no Lactec, o laboratório de pesquisas de tecnologias da Copel e da Universidade Federal do Paraná.
O Procel financia as prefeituras na troca das ultrapassadas lâmpadas de mercúrio por outras de vapor de sódio, mais econômicas e de maior luminosidade. Apenas em Curitiba, já foram trocadas quase 70 mil lâmpadas, cerca de 70% da meta final.
O Paraná tem ainda programas para poupar energia, reduzindo consumo nas horas de pico. Dois exemplos: Energia da Madrugada A Copel financia a troca do chuveiro elétrico para o consumidor que optar por aquecedor de água de acumulação. Nesse caso, um dispositivo eletrônico vai determinar que o aquecimento seja acionado entre meia-noite e 6 horas da manhã, período em que o consumidor terá um desconto de 40% na tarifa de energia; Tarifa amarela Outra alternativa à disposição do consumidor é a concordância em pagar uma tarifa até quatro vezes maior para a energia utilizada entre 18 e 21 horas, o chamado horário de pico, em troca do desconto de 40% sobre a energia consumida nas demais horas do dia.
São, enfim, soluções com muito mais possibilidades de êxito que o chicote da punição, que os tecnocratas empunham neste momento.
- JAIME LERNER é governador do Paraná





