amargura do presidente Fernando Henrique Cardoso emergiu ontem na entrevista que concedeu à colunista Tereza Cruvinel, do jornal ‘‘O Globo’’. Atordoado pelas denúncias de corrupção feitas contra seu governo, pela suspeita de aliciamento indevido de parlamentares a fim de que retirassem assinaturas do pedido de CPI da Corrupção há duas semanas e pela sensação de que perde simpatia e aprovação populares, FHC disparou advertências sobre os riscos que corre a democracia.
O presidente exagerou e sabe disso. Não há risco sistêmico a abalar a República. Não há generais de prontidão nos quartéis nem marinheiros rebelados embarcados no porta-aviões São Paulo. Não há guerrilhas urbanas armadas a ameaçar a ordem institucional nem se fala em revogar o calendário eleitoral que prevê eleições diretas para quase todos os cargos executivos e legislativos do País em 2002. A antevisão de um golpe antidemocrático, portanto, é ilusão de quem anda cercado pelas quatro estéreis paredes do gabinete principal do terceiro andar do Palácio do Planalto. Isso é o epílogo do governo.
Fernando Henrique perdeu a intimidade com os interlocutores que lhe levavam o sopro das ruas. Na conversa com a jornalista, ele deu pistas de sentir falta dessas discussões. Reclamou do afastamento de Luiz Inácio Lula da Silva e classificou como ‘‘ex-amigos’’ quatro juristas que protocolaram um pedido de impeachment contra ele por quebra de decoro. Lula e estes juristas, além de empresários, sociólogos e outros políticos de oposição como Miro Teixeira, José Genoino e Cristovam Buarque, integravam um amplo conselho informal que dava idéias ao presidente.
Esses membros do conselho de FHC discutiam política, economia, negócios, conjuntura internacional. Também falavam mal de amigos e inimigos comuns. Tendo adversários políticos ou diletos colaboradores como interlocutores, naqueles primeiros anos de mandato FHC parecia confirmar a profecia que se fazia sobre ele quando ainda era um opaco senador por São Paulo: ‘‘Este é o homem mais preparado para ocupar a Presidência da República.’’ A intimidade com os contrários desapareceu.
Incapaz de traçar uma estratégia de articulação parlamentar que o mantivesse afastado do bloco pantanoso do Congresso, Fernando Henrique deixou que seu governo operasse com desfaçatez no baixo clero em momentos cruciais como a aprovação da emenda de reeleição e o enterro da CPI da Corrupção. Permitiu que, dois anos depois da operação que desvalorizou o real e pôs fim à paridade da moeda brasileira com o dólar americano, pairassem dúvidas sobre a lisura do Banco Central (BC) ao pilotar o processo. Agora, quando recolhe as críticas e o fogo naturais ao entardecer dos governos, o presidente parece ser um estadista reduzido pelas circunstâncias.
- LUÍS COSTA PINTO é jornalista em Brasília

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