A Sociologia de todos nós - Constantino Comninos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de dezembro de 1998
Constantino Comninos 
O livro Organização e Contexto Social - para entender Sociologia, da professora-doutora Maria Olga Mattar, lançado recentemente no Centro de Ciências Jurídicas e Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, em Curitiba, nos traz reminiscências do tempo das saudosas faculdades de Filosofia, Ciências e Letras das universidades Católica e Federal (que tinham no irmão Luiz Albano um guardião permanente), tal a simbiose que possuíam até a sua extinção ad nutum por decreto do governo federal quando da implantação da Lei 55.430 do ensino superior, nos idos dos anos 70.
A professora Maria Olga, formada em Filosofia, a conhecemos estreante no magistério superior no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, como professora da disciplina de Sociologia Geral, uma entre vinte - hoje existem cerca de oito dezenas - naquela época, exigência plena para o bacharelado e a licenciatura.
Rememorar os anos do funcionamento de ambas as faculdades no prédio contíguo ao Colégio Santa Maria que até hoje é lembrado como o da Rua Tibagi, é retornar a um passado de grandes discussões teóricas, tertúlias infindáveis sobre temas os mais diversos e uma vida acadêmica a tal ponto ativa, que o tempo era pouco, já que também era dedicado aos cursos de extensão hiperdiversificados, que aperfeiçoam os nossos conhecimentos, incentivados que éramos a deles participar pela nossa professora de Sociologia. Era tal a unidade das duas faculdades que se uma delas promovia a extensão, entendia-se como se fora iniciativa da outra.
Da professora Olga, aprendemos não apenas os rudimentos da ciência-mãe das Ciências Sociais, como também a orientação metodológica, o encaminhamento para nos embrenharmos com segurança na interdisciplinaridade, o aprendizado na formulação de hipóteses que deveriam ser comprovadas cientificamente, tal a grandeza que permeavam a condução de suas aulas, marcadas pela isenção ideológica, característica que determinou a sua vida acadêmica até os dias de hoje.
Alguns alunos, afoitos na defesa de algumas ideologias exóticas, típica posição revolucionária da juventude de todas as épocas, ao se dirigirem aos centros maiores para aperfeiçoar seus conhecimentos sob a alegação, pode-se dizer infantil, da crítica infundada do que nos era ministrado nas nossas faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, indicativa a alguns professores rotulados como reacionários, quer quisessem quer não, levavam consigo a bagagem teórica apreendida nas aulas e nos trabalhos exigidos, notadamente na Sociologia. O seu sucesso, no confronto com professores e pesquisadores que determinavam os estudos das Ciências Sociais no Brasil, valida o aprendizado que tiveram. Esperemos que tenham, reconhecido o trabalho de base dos nossos mestres e da nossa dedicada professora.
A leitura do último livro da amiga e orientadora, apresenta os esquemas que sempre consagraram sua didática em sala de aula. O texto, escrito na linguagem lógica que ela sempre se exigia - e nos exigia - continua a traduzir com clareza cristalina a conceituação necessária à compreensão dos emaranhados caminhos da explicação sociológica, sempre destinados a preparar rebeldes iniciados nesta ciência, e permitir a estes, arroubos mais avançados no futuro.
Os gregos do período clássico, em sua organização política, conceberam um pritaníon - reitoria - uma espécie de universidade como fórum de debates, espaço onde os homens experientes eram eleitos e se encontravam para discutir as coisas da cidade como também para aconselhar os mais jovens. A professora Olga, se vivesse naquela época, jamais seria incorporada, tendo em vista que a sociedade da polis, a cidade-Estado grega, não considerava a mulher como um ser social absorvível. Entretanto, a convite da Faculdade Católica de Filosofia, Ciências e Letras, Maria Olga Mattar foi a primeira mulher a atravessar os umbrais do magistério superior nessa academia.
O magistério das Ciências Sociais no Paraná tem um débito imenso para com muitos de seus professores, alguns pioneiros e fundadores, notadamente nesta área do saber. Cabe a Maria Olga Mattar o mesmo mérito como pioneira da nossa geração, pois muito lhe devemos do que apreendemos de Sociologia, já que o conhecimento desta ciência não deixa de ser a maior das heranças que nos foi transmitida, para adquirirmos a compreensão do comportamento humano nas fronteiras da sociologia de todos nós.
- CONSTANTINO COMNINOS é professor universitário e vice-cônsul honorário da Grécia em Curitiba


