Joel Samways Neto
O galpão que abrigava dezenas de caminhões e dois ônibus, em São José dos Pinhais, que foi ‘‘estourado‘‘ pelo Serviço de Inteligência da Polícia Militar (P2), no começo deste mês, pode se tornar o mais novo emblema dos desacertos entre a Justiça, a Segurança Pública e a mídia.
O episódio ganhou repercussão nacional através de todos os meios de comunicação. Promotores de Justiça, policiais civis e militares apareceram na TV arrebentando as portas do galpão, agentes com farda de grupos de operações especiais, fotos, imagens, entrevistas etc. A notícia era de que tinham encontrado um dos locais onde se guardavam veículos roubados e receptados, e que implicava alguns acusados de chefiar desmanches de automóveis e participar de esquemas de distribuição de drogas. Um espanto e um alívio para a sociedade. Espanto em razão das proporções do esquema, o número de veículos e as suposições das autoridades. Alívio porque, afinal, a polícia tinha arrebentado tudo e seria um bandido a menos a circular pelo Paraná.
Uma semana depois, o advogado do acusado ocupou espaço na mídia para dizer que nem o galpão nem os veículos pertenciam ao seu cliente. Na verdade, segundo documentos extraídos de processos judiciais, os veículos tinham sido recuperados mediante ações de reintegração de posse promovidas por bancos contra clientes inadimplentes. O tal acusado teria apenas intermediado a locação do galpão. Enquanto isso, o diretor do Instituto de Criminalística declarava que era ‘‘plausível’’ que os caminhões não pertencessem ao acusado.
Obviamente, as investigações continuam, e nenhuma hipótese pode ser descartada. A pergunta é: por que os promotores de Justiça e os policiais, que ‘‘estouraram’’ o galpão, não se certificaram melhor, não investigaram mais, não fundamentaram adequadamente sua ação? Por que a mídia pôde acompanhar tudo e lançar à sociedade informações que, no fundo, no fundo, eram ainda imprecisas? Por que não esperaram o trabalho dos peritos? Por que as autoridades deram declarações precipitadas, dando conta de uma versão a respeito da qual não tinham certeza? Por que tanta pressa?
Ninguém precisa ser um aficionado por Sherlock Holmes para saber que o sucesso de qualquer investigação policial depende, em grande parte, do sigilo (e é favor não confundir ‘‘sigilo’’ com ‘‘mordaça’’). Esse método tipo ‘‘trator de esteira’’, escavando tudo o que surge pela frente, só vai conseguir espantar suspeitos e fazer desaparecer as provas. As provas, senhores, as provas. A mesma sociedade que ficou perplexa com a magnitude de um suposto esquema do crime organizado, ficou perplexa quando viu que as aparências enganavam – ao que as autoridades responderam quase que com um simples ‘‘ops, escaps!’’.
Pois a sociedade também ficou perplexa diante do estrépito da CPI do Narcotráfico, que mandou prender delegados de polícia e pôs o delegado-geral para correr. E continua perplexa porque os delegados que estavam presos estão sendo soltos, e o chefe de polícia que estava foragido reapareceu, todos beneficiados por ‘‘habeas-corpus’’ concedido pelo Poder Judiciário.
Quer dizer, a Justiça entendeu que não havia provas suficientes para manter presos os que estavam presos e ordenar a prisão do que estava foragido. Porque até o Watson, o médico amigo de Holmes, sabe da fragilidade da prova testemunhal. Com a CPI do Narcotráfico o Brasil descobriu que nunca foi tão fácil denunciar alguém. Basta coletar o depoimento de uma pessoa mascarada, alegando que fulano e beltrano faziam parte de uma quadrilha, que extorquiam, que traficavam... É só isso e os acusados recebem voz de prisão, saem algemados do plenário, vexados, sob flashes e holofotes, sumariamente condenados pelo ‘‘tribunal’’ da mídia.
Agora, a sociedade está perplexa porque os acusados estão anunciando processo por dano moral contra o Estado. Decerto, pedirão uma fortuna para reparar uma lesão – que, por sua natureza, é irreparável – e também para custear os honorários de seus brilhantes advogados. Então a perplexidade está aumentando, pois, de repente, se as investigações não arranjarem mais prova alguma, o que vai estourar mesmo é o Tesouro Público, onde está guardado o suado dinheiro do povo. Isso significa que a sociedade, já vitimada pela corrupção policial e pelo narcotráfico, está correndo o risco de ser vitimada mais uma vez, se e quando o prejuízo moral dessa história for debitado em sua conta.
Já os parlamentares da CPI açodada estão todos com reeleição garantida.

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