A soberania nacional não pode ser negociada
O que surpreende não é a verborreia do presidente norte-americano, mas os 20% de brasileiros que apoiam a bizarrice dele no ultimato ao Brasil
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sábado, 19 de julho de 2025
O que surpreende não é a verborreia do presidente norte-americano, mas os 20% de brasileiros que apoiam a bizarrice dele no ultimato ao Brasil
Pe. Manuel Joaquim R. dos Santos 
Na década de 1880, face ao crescente interesse das potências europeias pelo continente africano, também Portugal quis fazer valer o seu “direito histórico” na África, elaborando um plano, que ficou conhecido como o “mapa cor de rosa”. Tratava-se basicamente de ligar Angola a Moçambique por uma linha férrea, acrescentando centenas ou milhares de quilômetros de cada lado! Apesar de arrojado, não era para a época de modo algum insensato, o que levou a França e a Alemanha a concordarem com a pretensão lusa. Portugal, contudo, já dava sinais nítidos de decadência do seu império (o Brasil tinha decretado a sua independência), e internamente, o enfrentamento da monarquia com as forças republicanas atingia uma tensão insustentável. A Inglaterra opôs-se veementemente a este projeto.
Ora, a Inglaterra era a primeira aliada de Portugal desde o início da nacionalidade, aliança selada no século XIV com o casamento de Dom João I com a princesa Filipa de Lencastre. Nas constantes lutas contra a Espanha, nas invasões francesas e principalmente no episódio da fuga da família real para o Brasil em 1807, as forças inglesas foram fundamentais. A Inglaterra era “nossa amiga”! Mas, como bem sugere a gíria popular, “amigos amigos, negócios à parte”! É sabido também, que por trás da oposição inglesa havia o seu interesse em construir um caminho de ferro do Cairo à cidade do Cabo na África do Sul. Em 1890, o primeiro-ministro britânico Lord Salisbury não hesitou em dar um ultimato a Lisboa, ameaçando bombardear a capital, se Portugal não renunciasse às suas pretensões. A monarquia portuguesa, mais fiel à ligação dinástica do que aos interesses nacionais, na pessoa do recém empossado D. Carlos, cedeu a Londres. O hino nacional “a portuguesa” nasceu exatamente como reação ao Ultimato. Os seus versos assim o retratam:
“Heróis do mar, nobre povo, Nação valente, imortal, levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal! (...) Às armas, às armas! Sobre a terra, sobre mar, às armas, às armas! Pela Pátria lutar! Contra os canhões, marchar, marchar!”
O embaixador português em Londres trabalhou em favor dos ingleses! A monarquia alegava laços ancestrais. Com isso, a já fragilizada dinastia de Bragança, assinava o seu fim! Acusada de conspirar contra a pátria, viu surgir com força implacável os ideais republicanos, que poucos anos depois aboliriam o antigo regime e proclamariam a República. Os “traidores” pagaram com a vida; o regicídio de 1908 matou o rei e o príncipe herdeiro. Este episódio triste da história portuguesa revela duas coisas: em momentos difíceis da nação, a soberania não pode ser negociada, custe o que custar, porque daí deriva a própria essência do que se é como país independente! Em segundo lugar, é exatamente em circunstancias delicadas e constrangedoras, que se revelam os verdadeiros patriotas.
O Brasil vive sob um ultimato! É grave afirmá-lo, mas não restam dúvidas perante as cartas “midiáticas” de Trump! Ou a justiça brasileira se submete à humilhação de rasgar os ditames constitucionais e subverter os trâmites processuais legítimos e normais, ou o país amarga pesado tarifaço sobre os seus produtos exportados aos EUA. Não existe eufemismo para esta operação!
Talvez o que nos surpreenda não seja a verborreia do presidente americano que já mostrou o quanto é falastrão e mentiroso. São os cerca de 20% de brasileiros (e vários políticos de renome) que apoiam a bizarrice do hóspede da casa Branca. Não existe nenhuma justificativa para esta aberração. Os magnatas do Agro sabem e os grandes industriais também, que pesa acima de tudo uma enorme injustiça e uma falácia, uma vez que o Brasil respondeu por 1,2% dos produtos importados pelos Estados Unidos e por 2,39% das exportações americanas, de janeiro a maio deste ano.
O nome do caldo litigioso é outro! São as bilionárias big techs! Promotoras de fake news, de misoginia, de atentados contra a Democracia e Estado de Direito, aptas a derrubar regimes legitimamente eleitos. Seus donos almoçam em Washington! Trump sabe onde quer chegar. Mas o Brasil tem instituições sólidas o suficiente para brecar seus intentos escusos!
Pe. Manuel Joaquim R. dos santos
Arquidiocese de Londrina


