A síndrome do caranguejo
A síndrome do caranguejo
J. Roberto Whitaker Penteado
Carlos Salles, o presidente emérito da Xerox do Brasil, lançou bastante discretamente um livro de título duplo: Desta Terra sem Par... ou A Síndrome do Caranguejo. O livro é, ao mesmo tempo, didático e autobiográfico, na medida em que Salles é um executivo de sucesso que teria dado um ótimo professor (talvez ainda tenhamos sua colaboração nas salas de aula, pois está meio que se aposentando da multinacional).
O título duplo é, também, expressivo. As palavras Desta Terra sem Par foram retiradas, pelo autor, de uma canção do seu Estado natal (Espírito Santo). No livro, aprendi que, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, foram proibidos os hinos estaduais. Aos capixabas, restou o artifício de, nas ocasiões cívicas, de 1943 em diante, entoar uma canção que, por coincidência, incluía a maioria dos acordes do hino proscrito...
Quanto aos caranguejos, o autor conta a história atribuindo-a a Luiz Lucas, antigo prefeito de Vitória: um citadino observava um vendedor ambulante que, acompanhado de seu burro, transportava caranguejos vivos num balaio sem tampa. Depois de alguns momentos, decidiu chamar a atenção do vendedor capixaba, naturalmente alertando-o de que os caranguejos iriam fugir, o que resultaria em prejuízos irreparáveis.
Ao que retrucou o vendedor: O senhor é da cidade e não conhece caranguejo. Se algum tentar escalar a parede do balaio para fugir, será logo agarrado pelos demais, que o puxarão para baixo. E acrescentou: é assim desde que Deus botou o caranguejo nos mangues; balaio de caranguejo não precisa de tampa.
Se a síndrome do caranguejo não é a raiz de todos os males do Brasil aspecto importante da argumentação de Salles sem dúvida terá contribuído bastante e, quem sabe, poderia ser acrescentada ao famoso binômio muita saúva e pouca saúde de Mário de Andrade.
Não pude deixar de lembrar de uma história, contada no Time americano, quando a Rússia abria suas portas, no início da Glasnost e uma dona de casa confidenciou ao repórter da revista: Sabe qual é o problema desse país? É que, se o vizinho compra uma vaca, as pessoas, em vez de ficar com vontade de ter uma vaca, também, passam a desejar que a vaca do vizinho morra...
Salles vai buscar mais explicações para nossas idiossincrasias, em Portugal, precedendo o raciocínio com a afirmação de que os brasileiros são, ainda, na essência, os descendentes, principalmente, dos portugueses. E Portugal criou dois sentimentos nacionais especialmente destrutivos: (1) O catastrofismo e (2) O sebastianismo.
Sobre o primeiro, o autor desfia uma longa série de citações de portugueses que falaram muito mal de seu país de Antero de Quental a José Fontana, passando por Ramalho Ortigão, que chegou a escrever: Portugal não é uma nação, é apenas um sítio onde plantamos algum trigo e chafurdamos na abjeção moral. Notam-se ecos de Monteiro Lobato, que, perto da morte, escrevia sobre o seu temor de que o brasileiro se tornasse ainda mais sem-vergonha do que já é...
E, segundo Salles, o sebastianismo o desejo irracional pelo retorno de Dom Sebastião, morto em combate contra os mouros levou os portugueses (e a nós, por descendência) a acreditar que haverá sempre algum predestinado para salvar a pátria. Objetivamente, significa que os nossos problemas serão, de alguma forma, resolvidos pelos outros.
Catastrofismo sebastianismo comportamento de caranguejo o ódio pelo sucesso, denunciado por Tom Jobim são cargas pesadas, que suplantam até a saúva na capacidade de destruição das energias produtivas do País.
Carlos Salles propõe soluções, em seu livro oportuno e estimulante, pontilhado por numerosos exemplos retirados das suas memórias de família e das experiências profissionais, sobretudo na Xerox e na Casa da Moeda, onde trabalhou nos anos 60. Não são exatamente criativas, e chegam a ser, até, meio óbvias: não agredir a Nação como se dela não fizéssemos parte, mas encarando-a como oportunidade de realização e crescimento pessoais.
Alguém tem alguma idéia melhor?
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente de instituição universitária de propaganda e marketing no Rio de Janeiro





