A síndrome do Atlético
Muita gente ficou impressionada com a reação da torcida atleticana diante do novo insucesso do time em seus domínios, atirando-se contra os automóveis dos jogadores e depredando-os. É tênue a fronteira entre o amor e o ódio de todos os passionais. O pior é que isso pode se dar no pós-eleições.
O imaginário do torcedor, irrigado pela irracionalidade e uma fé doentia, é muito parecido com o do eleitor. Aliás, está aí a diferença entre o emocional que domina o discurso de Lula e o esforço pela racionalidade, o viés de José Serra, que só se perde quando, impelido pelo desespero, vale-se do marketing do medo, um instrumento tipicamente fascista, para tentar uma reversão que a cada momento parece mais impossível.
No coquetel eleitoral, depois da intervenção de Regina Duarte, tivemos a da revista ''Veja'' que, em sua última edição, pergunta (com o intento claro da negação) se Lula seria capaz de controlar os 30% das tendências radicais. E isso é tão visível que nos outdoors há uma espirituosa e mal intencionada referência ao que chamam de ''radicais livres''.
DIONÍSIO & APOLO Não seria apropriado ligar essa pulsão vital, triunfalista, de Lula ao dionisíaco e a contenção (a despeito das últimas agressões) de Serra, essa aproximação ao cartesiano, a uma busca do apolíneo? Apesar da analogia um tanto quanto ao gosto acadêmico, ela é apropriada. Cansado de ser lógico e racional e não ver respostas nas pesquisas, Serra usa contra Lula boa parte do arsenal que se empregava contra ele pelo regime militar quase sempre lastreado em preconceitos erigidos em sistema.
Essa ausência de racionalidade, tomada no campo psicossocial por uma difusa forma de esperança que a todos atenderia, está presente na campanha de Lula. Claro que há ''luas pretas'' e doutrinadores capazes de vertê-las em código de lógica. E ela pode transformar a massa, não atendida nas expectativas que foram criadas, em algo mais difícil de controlar do que as tendências mais à esquerda do espectro petista (para não falar das outras legendas que se ligaram no processo). O PT mudou muito em direção à racionalidade, mas há algo no imaginário popular em torno do símbolo operário que ainda persiste de forma residual e que tanto o prejudicou no confronto com Collor.
POSSÍVEL E DESEJÁVEL Mesmo voltado mais para as classes médias, e cada vez menos basista e obreiro, o partido ganhou a feição social-democrata que nenhum outro no Brasil até agora obteve, capaz de fazer aqui o que já se deu há mais de um século na Europa e Estados Unidos com o Welfare State, o Estado do Bem-Estar. Só que isso, ainda que configurado como o possível, pode não ser o desejável dos mais excitados. Tal qual se deu com a torcida atleticana que em seu imaginário tenta redescobrir no seu clube o campeão do ano passado.
BIZARRICE Quando o torcedor atleticano quebra o carro importado do jogador do seu time ele o atinge no seu ''status'' para o qual pensa ter contribuído.
AXIOMA Religioso, quando não atendido em suas demandas, costuma jogar imagens de santos pela janelas ou submetê-las a constrangimentos. O homem não é como Rousseau imaginou e nem o selvagem é bom.
GLOSA Até para a esperança há cronograma. Quem esperou tanto pelo advento de Lula deve fazê-lo muito mais com a sua impaciência pessoal. Aí há a cultura do prazo (a prestações) que permite a todos ter coisas que o crediário garante.
EPIGRAMA ''Quem sabe faz a hora não espera acontecer'' foi muito mais a receita da direita militar do que da esquerda cheia de fé e indignada.
FOLCLORE O que amedronta mais: a continuidade ou a hipótese de mudança? Isso aí dá coluna do meio, um belíssimo empate.





