Seria bom termos um ano melhor para o Brasil e para o mundo, sem sofrimentos para os povos. Que 2004 valesse por si mesmo, por suas coisas boas, não só pelas comemorações de fatos positivos, que deixam saudade, ou lembranças dos negativos, que se purgam, ano a ano, para não se repetirem mas se repetem. Sob tal aspecto, fatos centenários, em 2004, relativos a seres humanos, são melhores que os produzidos pelos governos. Appolinaire canta seu carnaval de 1904 num poema. O moço Chaplin diverte a Europa com danças cômicas. Picasso, jovem, abre horizontes à bela pintura em Paris. Em 16 de junho, Joyce e Nora, mal se conhecem, amam-se num bosque. Por isso, nesse dia, ocorre toda a ação de Ulysses, cujo autor sofre de ciúme doentio pela mulher, como Swann, de Proust, por Odette.
Cronista genial das paixões da belle époque, Proust empolga-se com o Duplo Jardim, de Maeterlinck, obra que a crítica situa entre o sublime e o ridículo. Nasce Neruda e morre Tchekhov. Esse, digno, renunciara à Academia russa, porque Gorki fora dela excluído. A voz de Caruso assombra Nova York. Fernando Pessoa, menino, é premiado em redação inglesa. Machado de Assis reflete sobre velhice, em Esaú e Jacó, dias antes de enviuvar. Freud explica suas análises. É o lado bom de 1904.
Do outro lado, violências e ambições. Russos e japoneses matam-se na Ásia. Achando-se salvadores do mundo, os EUA forjam guerras de rapina. No século 19, tiraram Texas, Novo México e Califórnia do México. Arrancaram da Espanha, depois, Porto Rico e Cuba, e ocuparam as Filipinas. Em 1904, nova estratégia. O Senado colombiano proíbe a construção de um canal no istmo do Panamá? Pois os EUA separam o Panamá da Colômbia e, em dez dias, ganham o direito de construí-lo e de serem seus donos perpétuos.
Em 2003, Bush ampliou a globalização neoliberal dos EUA, usando, como armas de salvacionismo, a mentira e a desmemória. Que são, aliás, a essência do filme O ano passado em Marienbad, no qual ambas se voltam contra os que as usam e destroem uma relação viável de amor. Em política, a destruição atinge todos os vínculos, como os que ainda unem o atual governo aos eleitores de 2002. Mas, após os abalos já sofridos, teme-se que Lula fique só, se preferir o FMI às promessas esquecidas em 2003.
Há um Hotel Silva em Marienbad, sabiam? Isso a Lula é irrelevante. Relevante é escapar à síndrome Bush-Marienbad e merecer o respeito do povo, em 2004.
RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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