A simplicidade de uma família imperial
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terça-feira, 03 de junho de 1997
Antônio Ueno 
E é uma honra especial que o primeiro imperador japonês a visitar o nosso País seja Sua Majestade Akihito, pois o Brasil já não lhe é desconhecido. Aqui esteve, por duas vezes, como princípe herdeiro, a primeira em 1967, e a segunda em 1978, por ocasião das solenidades de comemoração dos setenta anos da imigração japonesa. Em ambas as ocasiões, o então príncipe Akihito cativou a todos pela simpatia, carinho e consideração que sempre demonstrou para com o povo de nosso País.
E agora, a convite de Sua Excelência o senhor presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, retorna pela terceira vez Sua Majestade Imperial, com uma expressa mensagem de amizade e fraternidade, que muito sensibiliza nossos corações. E mais nos sensibiliza por sabermos que essa mensagem deriva de um sentimento compartilhado por toda a sua família, sentimento do qual já recebemos inequívocas demonstrações.
Sua Alteza Imperial, o princípe herdeiro Naruhito, aqui esteve a convite do Governo Federal, em 1982; o príncipe Akishino nos visitou em 1988, para participar das festividades dos oitenta anos da imigração japonesa; e, por fim, foi a vez da princesa Sayako de nos honrar com sua presença, em novembro de 1995, quando se comemorou o centenário de assinatura do Tratado de Comércio, Navegação e Amizade entre nossos dois países.
Tamanha consideração da família imperial japonesa ao nosso País deixa-nos a todos os brasileiros emocionados e agradecidos, e serve de prova irrefutável do caráter único em que se embasa o nosso relacionamento bilateral. E qual seria esta base, origem da amizade entre Brasil e Japão?
A união entre nossos dois países foi chancelada no dia 8 de novembro de 1895, com a assinatura, em Paris, do Tratado de Comércio Navegação e Amizade. Treze anos mais tarde, em 18 de junho de 1908, aportava em Santos o navio Kasato-Maru, com os primeiros 781 imigrantes japoneses, que se espalharam pelas fazendas de café que se expandiam entre São Paulo e Paraná.
E permitam-me que traga uma curiosidade que, para mim, particularmente, nissei nascido no Paraná e representante do povo paranaense nesta Casa, muito me envaidece: a única sobrevivente daquela primeira leva de imigrantes, a Sra. Tomi Nakagawa, hoje com 90 anos de idade, gozando de saúde e lucidez, reside na cidade paranaense de Londrina, destino, aliás, de muitos outros imigrantes e terra natal de tantos descendentes seus.
Por sinal, os brasileiros de ascendência japonesa já somam hoje mais de um milhão e quinhentos mil, o que prova que, apesar das dificuldades, os imigrantes tiveram aqui uma boa acolhida pelo povo brasileiro, podendo se desenvolver e prosperar. Os pioneiros fincaram fundo as suas raízes neste solo, e agora, com plena cidadania brasileira, seus filhos participam, com destaque, de todas as atividades do País.
Sabemos bem que o começo não foi fácil. Vinham do outro lado do mundo, sem conhecerem nada da língua e dos costumes da terra para onde partiam; traziam apenas esperança e muita vontade de trabalhar, para o progresso pessoal e também da terra que os recebia.
Assim, fizeram desta a sua Pátria, e a dos seus filhos, aos quais ensinaram o valor da austeridade e do trabalho, sem os quais, hoje, nisseis e sanseis não estariam podendo gozar do conforto que desfrutam e da posição a que galgaram na vida brasileira. É por isso que, como nipo-brasileiros, somos gratos aos nossos pais e avós, pelo trabalho incansável que empreenderam no passado.
Deixaram a terra natal, mas dela nunca se esqueceram. Não abandonaram seus costumes milenares, seu respeito pelos antepassados e pela sua história. Toda casa ostentava uma imagem, venerada e respeitada, do Imperador Meiji, que a todos infundia coragem para prosseguir na árdua jornada nesta nova terra.
Essa imagem era a de um antepassado de Akihito, representante que é Sua Majestade - o centésimo vigésimo quinto - de uma dinastia que já conta 2.657 anos, a mais tradicional e mais antiga do Japão e do mundo. Sua Majestade ascendeu ao trono em 7 de janeiro de 1989, sucedendo a seu pai, o Imperador Showa, que viveu o Japão devastado pelo segundo conflito mundial e participou do processo de reconstrução que iria transformar o país em uma das mais pujantes nações do mundo, exemplo de força e coragem de todo um povo.
Mas, apesar da tradição da Casa do Crisântemo Dourado, e do papel que ela desempenhou na longa história do Japão e que ainda desempenha na sociedade japonesa atual, como símbolo do Estado e da unidade do povo, entre as características que hoje melhor a definem destacam-se a simplicidade, a austeridade e a nobreza de espírito, que valorizam o justo equilíbrio entra a tradição e a renovação.
É o exemplo da casa monárquica que vem servindo de modelo a seguidas gerações de japoneses, dentro e fora do Japão. No Brasil, o esforço tenaz dos primeiros imigrantes veio se juntar ao dos brasileiros e de outros imigrantes, num processo de cooperação único no mundo. Desse trabalho conjunto, nascia um novo País.
Cooperação, por sinal, é a palavra chave no relacionamento bilateral, que se vê incrementado nos últimos anos, em todos os setores, através de uma troca de visitas de japoneses e brasileiros, seja por interesses econômicos e comerciais, seja por motivos pessoais.
Se na área privada e pessoal os contratos e a cooperação se intensificam de maneira marcante, é imperativo lembrar que também sobressai o aprofundamento do contato social. Assim, a atual visita de Sua Majestade constitui o ápice do intercâmbio que se tem intensificado ultimamente.
O Imperador Akihito já conhece o povo brasileiro, e também o quanto este devota ao povo irmão japonês de simpatia e admiração, já testemunhadas em suas vindas anteriores. Mais uma vez, tenho certeza, terá ocasião de receber provas ainda mais eloquentes, e confirmar as informações e os dados que acabo de apresentar, pois não se vislumbra outro rumo para o relacionamento bilateral senão o estreitamento contínuo dos vários laços que nos unem, a brasileiros e japoneses.
Assim, em nome da Câmara dos Deputados, reafirmo a disposição e o interesse de todos os membros desta Casa Legislativa de participar ativamente desse processo. E expresso o sentimento aqui dominante de que o reinado Heisei já se identifica na nossa história comum como um expressivo marco no aprimoramento de nossas relações.


