A SERCOMTEL CELULAR DEVE SER VENDIDA?
Talvez poucas pessoas em Londrina tenham tantos motivos sentimentais como eu para votar pela manutenção da Sercomtel Celular nas mãos do município, pois, para quem não sabe, o prédio da empresa leva o nome de meu pai, assim como a central telefônica da expansão de 1986, em justa homenagem por sua luta como presidente da autarquia numa época em que o governo federal de tudo fez para encampá-la ao Sistema Telebras. Foi em minha residência instalado o primeiro telefone com teclado da cidade; na Sercomtel tive minha primeira oportunidade de estágio e, por fim, graças a esta grande empresa pude retornar a Londrina, cidade onde cresci e sempre quis estar.
Meus conhecimentos sobre telecomunicações são sólidos graças a uma passagem como executivo por uma multinacional americana do ramo em São Paulo, e foram complementados por um ano e meio servindo à Sercomtel, de modo que me habilito a fazer um julgamento sério, claro e absolutamente técnico sobre a venda da empresa, totalmente isento de demagogias ou sentimentalismo de qualquer espécie. Afinal, em negócios, o que constitui minha especialidade, é fato que as ações encorajadas somente pelo coração, geralmente não se traduzem em resultados práticos.
Após a abertura do mercado de telecomunicações promovida pelo governo federal a Sercomtel viu-se cercada de forte concorrência por todos os lados, o que acabou sendo benéfico para um tipo de consumidor fortemente oportunista e que migra sem pensar duas vezes para o serviço mais barato, ainda que este não seja o melhor ou mais eficiente. Nessa autêntica guerra de preços vencerá sempre a empresa que estiver mais bem capitalizada, o que não é o caso de nossa companhia nem da prefeitura municipal.
A impossibilidade de expansão dos serviços de telefonia prestados pela Sercomtel para fora do perímetro do município inviabiliza o ganho de escala que as concorrentes conseguem obter. Com praticamente o mesmo custo de nossa empresa elas conseguem oferecer os serviços a um número expressivamente maior de clientes, maximizando as receitas e consequentemente podendo oferecer preços mais atrativos sem violentar seus lucros.
Algumas pessoas sérias de nossa cidade levantam a questão do emprego. O que acontecerá aos atuais funcionários da Sercomtel? De fato a questão não é simples de ser tratata. No entanto, é certo que num mercado competitivo e sem a proteção garantida pela estrutura pública, somente os bons e mais preparados sobreviverão. E felizmente vos afirmo que a maioria do capital humano da empresa é constituído por pessoas de excelente formação técnica e profissional, o que pode lhes garantir certa tranquilidade nesse momento de transição. Pior será se a empresa vier a quebrar por falta de uma ação imediata, pois aí sim nada poderá ser feito.
O papel essencial do dirigente é fazer face inteligentemente às mudanças, afirmou Robert Mc Namara, e recentemente em nossa cidade um empresário que faturava tanto quanto a Sercomtel vendeu sua empresa ao perceber que seria brevemente devorado pela globalização, mantendo seu patrimônio intocado e oportunizando crescimento para a cidade via aumento de arrecadação através do crescimento que o novo dono pode imprimir com novos investimentos.
O povo de Londrina deve agir da mesma forma que esse empresário, oportunizando aumento de arrecadação municipal e transformando a Sercomtel em obras importantes para a cidade, que se encontra em lamentável penúria não obstante os esforços do prefeito e sua equipe.
Para os que gostam de números, caso o dinheiro da venda fosse totalmente investido em uma caderneta de poupança, que sem dúvida se traduz como o pior investimento disponível, ainda assim o retorno seria maior do que o lucro gerado atualmente com a atividade produtiva. E não me venham falar na questão do emprego, afinal os mesmos continuarão a existir com o novo operador do negócio.
Eu vou votar pela venda da Sercomtel Celular, usando a razão e não o coração.
E espero que a maioria da população que ama a cidade faça o mesmo e permita que seu valor reverta em obras tão importantes para que continuemos sendo vistos como um dos melhores lugares do País para se viver.
- RICARDO PROCHET é diretor do Instituto Jurídico Empresarial, administrador de empresas e com pós-graduação em Administração, Finanças e Controladoria pela FGV. E-mail: [email protected]





