As homenagens ao senador Darcy Ribeiro, merecidas pelo que ele fez em favor da cultura brasileira, vieram, como quase sempre acontece no Brasil, fora de hora, isto é, depois de sua morte. Em vida, à exceção das deferências que o Senado lhe fazia, nos últimos tempos, devido à sua doença, o criador da UnB e dos CIEPs, ministro da Casa Civil de João Goulart e vice-governador do Rio, no governo Leonel Brizola, sofreu grandes dissabores e teve de deixar o País às pressas, em consequência do golpe de 1964. Nessa ocasião, Darcy tentou, no Palácio do Planalto, organizar uma resistência suicida ao movimento contra Goulart e, por isso, caiu em desgraça junto aos vitoriosos.
Em face das homenagens que lhe foram prestadas, dir-se-ia que Darcy, embora no sentido figurado e não literal - como se disse do gigante duque de Guise - ficou maior depois de morto. Era essa, no entanto, a estatura do grande homem de ação e de idéias, maior do que a dimensão física que o mineiro de Montes Claros e senador pelo Rio teve em vida.
No pleito de senadores a que ele concorreu e foi eleito em 1990, sua chapa tinha dois suplentes: o ex-deputado Doutel de Andrade e o Líder das causas negras no Brasil, Abdias do Nascimento.
Poucas vezes, na história parlamentar brasileira, se viu chapa tão homogênea, do ponto de vista cultural e intelectual, quanto a liderada por Darcy, do PDT fluminense. Mas Doutel, um dos deputados que resistiram, juntamente com Martins Rodrigues, Tancredo Neves e outros, ao fechamento do Congresso, pelo marechal Castelo Branco, morreu pouco depois da vitória eleitoral. De abdias, chega-nos a notícia - que se espera não se confirme - de não estar ele de boa saúde. Fala-se até que o último suplemente de Darcy não estaria disposto a exercer os dois anos de mandato que lhe couberam.
Nessa hipótese, o Rio ficaria com um senador a menos do que os demais estados, até a renovação do terço do Senado, nas eleiçõe gerais de 1998. A menos que Abdias renuncie, formalmente, à senatória, antes de 31 de agosto de 1997, a cadeira de Darcy pode, pois, ficar vaga durante os próximos 22 meses.
No caso, porém, de renúncia, antes de findo o mês de agosto do próximo ano, a Justiça Eleitoral, nos termos da Constituição, terá de convocar eleição para escolha de um novo senador carioca. Se todos esses fatos se cofirmarem, a senatória carioca será disputada, com chance de sucesso, pelo próprio ex-governador Leonel Brizola, como luta política a ser travada em homenagem à memória do criador da UnB.
Seja quem for o substituto de Darcy, a suave paixão com que ele exercia o mandato - de modo correto mas nada inamistoso em relação ao presidente Fernando Henrique Cardoso, seu amigo pessoal -, será substituída pelo tom mais duro com que Brizola e Abdias costumam combater por suas idéias e por seus objetivos.

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