Campos de capim nativo e barba de bode, explorada com pecuária extensiva, invernadas com matas para o tempo das geadas, e divisões de pasto limpo para o tempo das vacas gordas. Uma boa e secular sede. Em visita periódica à sua fazenda, herança de família com raízes de mais de 150 anos no sul, um velho amigo encontrou nas vizinhanças um assentamento de sem-terras. Como homem do interior, embora com excelente cultura universitária, sabia entreter-se num bate papo com a nossa gente do campo. Estavam acampados em barracas de lona plástica.
Gente simples, reunida em grupos aqui e acolá. Uma criatura que lhe pareceu simpática se aproximou da sua camioneta, e nosso amigo lhe pergunta:
- Vocês aí, amontoados, o que está acontecendo?
- Bom dia.
- Diiiaaa... respondeu em monossilabo a simpática criatura, calças jeans, um boné desses de propaganda e uma camisa com listras do Corinthians, e sapatos ainda de cidade (não do tipo caipira). Na porta de sua barraca, uma mulher ainda jovem com uma criança no seio, descalça.
áá- Vocês aguardam uma solução do Incra? Interpretou novamente nosso amigo, curioso para sentir até onde iam as pretensões do grupo.
- É... - respondeu o rapaz de boné. Ficaram de nos avisar quando a vistoria estiver pronta na fazenda do Salto, lá para as bandas do Gravatai.
- Você tem trabalhado na lavoura antes?
- Para lhe dizer a verdade, esta vai ser a primeira vez.
- Vocês são daqui de perto?
á- Não ‘‘sinhor’’. Nós ‘‘vinhemo’’ de Foz.
- Mas de lá tão distante: E o que faziam lá?
- Lá eu era barbeiro. ‘‘Dissero’’ que aqui a gente podia ter umas terrinha, então ‘‘vinhemo’’ com outros companheiros’’.
Ao despedir-se, apertaram-se as mãos, e pôde sentir então o nosso experiente amigo que apertara amigavelmente uma mão isenta de calos, com dedos e unhas grandes, típicas de um tocador de violão; lá estava ao lado de um pilão velho, e de um fogão a gás, de quatro bocas, uma foice e uma velha enxada.
Pessoas depois se ajuntaram. Era hora do nosso amigo partir. E assim o fez, matutando: - Minha fazenda necessita de mão-de-obra para roçada de pasto, para esticar arame de cerca, e temos como abrigar uma ou duas famílias. Não posso imaginar tanta gente amontoada à espera de quê? Quando? Vistoria da área tida como improdutiva?
Informaram que teriam que esperar ali, senão perderiam o ‘‘direito’’ de obter um quinhão (20 hectares), ou 8 alqueires. Até lá teriam que esperar! Mesmo porque viria uma ‘‘cesta básica’’. O padre da Pastoral da Terra animava-os com palavras das Escrituras e o líder os advertia:
- Se saírem do grupo para qualquer outra alternativa, perderão o ‘‘direito’’ etc etc...
E eles então se reuniam aos grupos aqui e acolá, ou em torno de uma das barracas mais incrementada com bandeiras do MST, e uma surrada Bandeira Nacional, tremulando no alto de uma vara de bambu.
E barro, e mulheres lavando roupa no ‘‘córgo’’ e crianças rodeando os grupos que se formavam aqui e acolá. Visão real de uma situação de muitos culpados, entre os maiores, o analfabetismo, a incultura com seu cortejo de miniséries: ignorância dos menores preceitos de higiene e medicina preventiva primária - ignorância de como proceder com a água de beber’’, com a limpeza, as dermatoses provocadas por picadas de mosquito (borrachudo), a escabiose (sarna), o impetigo consequente a essas dermatoses, as disenterias, a diarréia infantil, a subnutrição. Enfim, todas as patologias com trânsito de ida e volta naqueles nossos infelizes irmãos, agora expostos assim, por promessas vagas de modernos estrategistas, econometristas de matemágica que determinam, mas não conhecem nem o ciclo vegetativo da couve e manobram tratores ou semeadeiras à esmo em solo estéril de micro-elementos primordiais. Será mais uma experiência sociológica de massa? ‘‘Remember’’ a revolução dos Cravos Vermelhos em Portugal, a mais recente reforma agrária socialistizante, de trágica memória.

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