A desvalorização do câmbio foi uma dentre várias opções de política econômica cogitadas pelo governo na crise que fez do Brasil, nesta semana, o foco do nervosismo mundial. A hipótese continua no cenário, mas tanto quanto nos perigosos dias que passaram, ela é vista como uma solução limite, a ser adotada apenas quando já não mais existirem esperanças de salvação.
A fuga de dólares, que reduziu as reservas cambiais do Banco Central a US$ 52 bilhões na manhã de anteontem, foi sobretudo causada por uma crise de confiança na capacidade do governo de lidar com o impacto da crise financeira internacional. É verdade que parte expressiva desses recursos foi cobrir prejuízos bancários, especialmente europeus, com a moratória decretada pela Rússia. Mas parte também expressiva dos US$ 23 bilhões que saíram desde o colapso russo procuraram proteção contra a eventual maxidesvalorização do real.
O pânico da desvalorização quase gerou o fenômeno da profecia que se autocumpre. Isto é, a corrida para o dólar e para papéis mais seguros no exterior, como os títulos do Tesouro americano, baixou as reservas cambiais, aumentou a vulnerabilidade da economia e realimentou a desconfiança na solidez das políticas brasileiras, num círculo vicioso que parecia não ter mais fim. No início da noite de quinta-feira, ainda tendo pela frente horas de muita tensão, o ministro do Planejamento e do Orçamento, Paulo Paiva, fez um desalentado desabafo à mineira antes de se dirigir ao Palácio da Alvorada para reunir-se ao presidente da República: ‘‘Uai, sô, esse dia não acaba mais não?’’.
Àquela altura, para muita gente no mercado financeiro, e para algumas cabeças de Brasília, o dilema do governo se resumia à escolha de um entre três cenários: (1) Dar um choque de juros para enfrentar o fim de semana e aguardar que o tempo trouxesse boas notícias do exterior; (2) Dar um choque de juros associado a medidas de restrições às importações e controle rígido das operações de remessa de dólares; (3) Associar tudo isso a desvalorização da moeda e a um novo e politicamente fatal torniquete fiscal.
Como todos agora sabemos, prevaleceu a primeira opção. O choque de juros foi efetuado e deu certo, pelo menos para atravessar uma sexta-feira que se revelou repleta de boas notícias no front internacional. A Rússia começou a reorganizar seu governo, o presidente Bill Clinton pediu perdão à família de Monica Lewinsky e se tornou mais palpável a hipótese de socorro financeiro internacional às economias dos países da América Latina.
Mas foram razões políticas internas que afastaram do cenário a hipótese da desvalorização cambial. Essa opção tinha evidentes contra-indicações. A eventual perda brusca de valor do real frente ao dólar seria um salto no escuro a três semanas das eleições de 4 de outubro. Ainda que não se deva senão especular sobre as consequências de uma eventual decisão desse tipo, o mais provável é que se produzisse na opinião pública um sentimento de frustração semelhante, ou até mais intenso, ao causado pelas medidas que em 1986 decretaram o fim do Plano Cruzado. O sintoma agudo desse sentimento foi o ‘‘Badernaço’’, no protesto feito em Brasília.
O coração do Plano Real é o valor estável da moeda. As desvalorizações lentas que vêm sendo administradas desde 1995, além de quase imperceptíveis, são compensadas pelo controle da inflação. Não é difícil supor, por isso, que à perda brusca de valor do real se seguiria um ambiente de descontrole de preços. A decepção política tomaria conta dos espíritos. O efeito desse clima sobre a campanha eleitoral seria imprevisível, mas o mais provável é que o presidente FHC perdesse popularidade na mesma proporção do desapontamento do povo. Tal escolha seria um risco demasiado, perto da eleição, até mesmo para quem, como ele, garante que não hesitará para proteger a economia e a moeda.
- ARIOSTO TEIXEIRA é jornalista em Brasília
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