A segurança da localidade
Joel Samways Neto
Começou a corrida eleitoral municipal de 2000. E por obra e (des)graça do nosso sistema eleitoral, aliado à imaturidade da mentalidade social, é bem provável que haja mais uma disputa prévia, partidária, às eleições presidenciais e para governadores de 2002. Porque vereadores e prefeitos não são cabos-eleitorais, são coronéis-eleitorais. Isso significa que o grosso dos discursos dos candidatos pode vir comprometido com críticas a crises atreladas à competências federal e estaduais.
Aliás, fato até compreensível haja vista o nível do partidarismo político nacional – medíocre, infiel, catapulta oportunista. (Hoje, há aliados do PSDB – e inclusive gente tucana – eleitos nas costas do Fernando Henrique Cardoso, então popular, que são capazes de afirmar ter esquecido até o nome do presidente da República. Isso para não se contaminarem com os índices negativos das pesquisas conjunturais de opinião).
Agora, se tem um tema realmente transversal a todas as esferas de governo, impossível de estar ausente de promessas, propostas e debates, esse é a segurança pública. O movimento pela paz, semana passada, encabeçado pelo Rio de Janeiro e rapidamente alastrado pelo País, dá o tom do interesse, do anseio, da expectativa, do medo que tomaram conta da população brasileira. Crise antiga. O ‘‘Basta, quero paz!’’ foi apenas mais um silvo da válvula da panela-de-pressão fervendo há décadas. Pois há décadas sabemos da violência no trânsito, da violência nas ruas, nos lares, nas escolas, onde quer que haja pessoas. Tudo tão banalizado que a imprensa tem feito, faz tempo, seleção sensacionalista: para dar notícia a colisão de veículos precisa ser escabrosa, repleta de vítimas; os assassinatos precisam ter um contexto especial, produzir fotojornalismo de impacto; sem homicídio, violência de gangues escolares não aparecem de jeito nenhum... e por aí vai.
É óbvio que os governantes municipais não tem responsabilidade direta pela política econômica nacional, acusada de ser a principal causa do aumento do desemprego, que, por sua vez, é uma das principais causas do aumento da criminalidade. Mas no âmbito da localidade há muito a ser feito no sentido de colaborar com a construção da segurança pública.
É importante que os governantes municipais, prefeitos e vereadores, tenham noção do significado de uma boa política de incentivos para atrair indústrias e empresas para a cidade, geradoras de empregos. Mas também é preciso pensar na qualificação do trabalhador – problema gravíssimo que atinge, imagine, até os EUA, a maior economia do mundo (estão importando especialistas de todos os cantos do Planeta). Portanto, além de atrair o setor empresarial, é necessário incrementar a rede municipal de ensino, capacitando os alunos, desde o ensino fundamental, a trabalhar com informática e conhecer bem o inglês. Isso sem falar em cursos livres de capacitação profissional.
Também se deve pensar no zelo pelo patrimônio público. Está cientificamente demonstrado que há lugares, nas cidades, tão abandonados, tão mal-iluminados, tão mal-vigiados, que se transformam em focos geradores de violência. Daí o administrador municipal precisa estar atento para dar conta daquilo que for de sua competência, celebrando convênios com órgãos estaduais e federais para limpar, iluminar, policiar esses lugares.
Muito simpáticas podem ser parcerias entre prefeituras e governo estadual, por exemplo, para estruturar melhor as delegacias de Polícia das cidades (coisa que entidades comunitárias têm feito).
Porém, mais do que um discurso mostrando que o candidato está engajado nessa luta patriótica de defesa da vida, defesa da paz, ele, o candidato, se eleito, precisa ser e agir honestamente. Esse é um passo fundamental de toda campanha de segurança pública.
Os candidatos aparecem, em todos os pleitos, dizendo-se ‘‘agentes do novo’’. No entanto, quem quiser tomar a medida dessa suposta agência, pode buscar informações, junto ao Ministério Público, sobre quantos prefeitos e vereadores estão afastados, respondendo a inquérito policial e sendo processados, por corrupção.
Pois é: periculosidade pública, de repente pode brotar da própria autoridade pública.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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