A segunda vinda
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de outubro de 2002
Walmor Macarini 
As religiões bíblicas anunciam que haverá uma segunda vinda de Jesus à Terra. Olhemos, então, a realidade do nosso tempo e vamos imaginar como seria. Jesus repetiria o nascimento numa manjedoura, no mesmo lugar do Oriente e nas mesmas circunstâncias? Pregaria na mesma região, caminhando de sandálias pelas escarpas e colinas? Se assim fosse, seu campo ficaria restrito a um pequeno universo de pessoas, considerando que a população do planeta, hoje, é de 6 bilhões e 200 milhões, espalhadas por toda parte. Jesus adotaria, certamente, outra estratégia.
Talvez resolvesse nascer em Nova York, que é um centro irradiador de grande abrangência, eis que todos que ali falam alguma coisa, são ouvidos. Nasceria num lar rico ou no bairro pobre do Harlem? Optaria por nascer no seio de família americana tradicional ou de descendentes árabes, judeus, italianos, índios, latino-americanos, eventualmente negros? Com certeza não vestiria túnica mas uma camiseta e calça jeans, calçaria tênis e não se locomoveria em lombo de jumento e nem em barco de pescadores pelo Rio Hudson, pois seria atropelado pelas embarcações velozes que cruzam aquelas águas. Não iria falar no topo dos montes, inexistentes em Manhattan, mas iria para o rádio e para a televisão e daria entrevistas a jornais e revistas.
Jesus teria de dizer que era Jesus. E aí criaria o primeiro complicador. Ninguém iria acreditar nisso. Os sumo-sacerdotes da nação mais evangélica do mundo o chamariam de impostor. Como de seu hábito, Jesus se insurgiria contra os vendilhões dos templos e contra a ganância do poder econômico, e poderia acabar preso, por perturbação da ordem. Mesmo que falasse a idêntica linguagem do Jesus anterior. Ele teria de viajar pelo mundo, mas como arranjaria dinheiro? A Coca-Cola poderia patrocinar uma jornada dessas se ele ostentasse uma camiseta com a logomarca da bebida e, em alguma festa de casamento, operasse o milagre de converter água em coca.
Jesus, por proclamar-se o próprio, seria ridicularizado pelos fiéis mais ortodoxos e qualificado de falso profeta, não sem o epíteto de estar possuído pelo demônio. Certamente reuniria grande número de seguidores, sobretudo entre os esotéricos e cidadãos livres, incluindo a comunidade ''paz e amor''. Os simples iriam admirá-lo, a imprensa underground lhe daria cobertura - legal, bicho! - pois se trataria de um sábio pregando nos becos e manifestando, mais uma vez, sua opção pelos pobres.
No Brasil, ganharia o imediato apoio da ala do PT mais à deriva. Isto se Jesus não viesse a optar por vestir George Armani. O que seria perfeitamente possível de ocorrer, pois ele poderia desejar imiscuir-se entre os ricos e poderosos e começar seu ministério por aí, tentando amolecer seus corações endurecidos. Jesus iria ser considerado brilhante, pelas suas palavras sábias, mas nunca aceito como Jesus. Se revolvesse candidatar-se a um cargo público - e assim governar o mundo através de uma alta função - só receberia respaldo de um pequeno partido, e então não teria, no horário político gratuito da tevê, mais que 15 segundos, apenas suficientes para dizer ''Meu nome é Jesus''. Poderia fazer um milhão e meio de votos e levar com ele mais cinco ou seis apóstolos.
Fora de cogitação. Jesus não se prestaria, numa segunda vinda, a ser um político. Um sábio como ele certamente desejaria impor-se por palavras e exemplos. Poderia, Jesus, nascer no Brasil, um país com o qual certamente se identificaria - porque, apesar de tudo, este é um povo de boa-fé - mas a mídia internacional (e sem mídia não se faz nada) não lhe daria grande cobertura, pelas suas origens - um simples brasileiro. Inevitavelmente Jesus teria de passar por coisas assim.
Ah, mas os que agora esperam por Jesus de novo, estes, para crer nele, não se deixarão envolver por sábias palavras. Quererão que Jesus apareça como uma imagem entre as nuvens e fale ao mundo com voz tonitroante, de forma a que todos caiam em prostração. Mesmo assim não faltarão os que irão imaginar tratar-se de algum truque da moderna tecnologia. Exigirão provas concretas. Quererão que ele venha revestido de uma enorme aura de luz e que fique suspenso no céu. Tudo dentro do maior estilo do mistério. Nada de simplicidades. Desse jeito ele já veio da outra vez e não convenceu mais que meia-dúzia.
É assim que os que aguardam a segunda vinda de Jesus o imaginam, e só crerão nele se for dessa forma. E com muito estrondo e soar de trombetas, porque a fé desses crédulos dorme em sono letárgico e será preciso muito barulho para despertá-la. Vê-se como seria difícil a aceitação de Jesus na Terra, numa segunda vinda! Ele poderá até vir, mas correrá o risco de ser sacrificado de novo!
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


