A segunda metade
Em menos de uma semana, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso estará entrando na segunda metade de seu mandato, o mesmo ocorrendo com os governos estaduais. É a arrancada final para qualquer administrador, com tempo para analisar o que já foi feito e programar o que falta fazer, conforme o programa estabelecido à época da campanha eleitoral.
O presidente Fernando Henrique Cardoso não parece disposto a encarar este período como o final de seu trabalho. Seu projeto é ficar mais tempo no Palácio do Planalto, desde que o Congresso lhe conceda o direito de disputar a reeleição e o eleitorado o confirme no posto. O presidente considera que os quatro anos de seu atual mandato não são suficientes para desenvolver todo seu programa de governo, inclusive o Plano Real.
Pesquisas de opinião pública mostram que o presidente Fernando Henrique Cardoso conta com sólido apoio popular. Em tese, caso possa se candidatar à reeleição, tem condições de atingir seu objetivo. Supondo que o Congresso lhe dê o direito à reeleição, tudo vai depender dos resultados de seu governo nos próximos dois anos, em áreas críticas como Saúde, déficit público, privatizações, ajuste fiscal, reforma tributária, reforma da Previdência, enxugamento do Estado, para ficar só nas de maior urgência. Avanços nesses itens serão fundamentais para o sonho da reeleição. Vacilações e derrotas justamente aí serão fatais.
As condições objetivas são, de fato, muito boas. A inflação deve ficar abaixo de 10% este ano na maioria dos indicadores e cerca de 30% da população do País ganhou poder de compra para ingressar no mercado de consumo. Falta trazer 20% que ainda se encontram abaixo da linha de pobreza, o que não será impossível se houver estímulos fortes ao emprego. A inflação brasileira apresentou índices verdadeiramente fantásticos este ano. Entretanto, o déficit público persiste e cresce. E sem medidas profundas e consequentes, as pressões sobre a economia poderão se tornar incontroláveis. O governo precisa se conscientizar do seu papel e da necessidade de implantar transformações objetivas para garantir a continuidade do processo de estabilização.
Nos dois anos que restam, o governo federal terá muito que fazer. Seria melhor se, ao invés de reeleição, estivesse preocupado prioritariamente com a obtenção das reformas, por mais difíceis que pareçam. Especialmente, a tributária, diante da qual a reeleição - que exige apenas sim ou não - é coisa simples. As reformas assegurariam a sustentação do Plano Real, enquanto o direito a disputar a reeleição não garante coisa alguma. No entanto, a questão da reeleição está lançada e o melhor que o Congresso tem mesmo a fazer a este respeito é decidir logo se dá ou não dá.
Entrar em 1997 sem esta definição é jogar para o ano inteiro uma discussão sobre o acessório quando o principal nem sequer foi tocado. Mesmo o plebiscito - que é o melhor caminho para decidir o assunto - vai acabar prejudicando a discussão e aprovação das reformas, adiando-as para depois de sua realização. E o País não merece ficar esperando indefinidamente pela consolidação do Real, que tantos benefícios já trouxe para a maioria da população.
Infelizmente, a ação política poucas vezes segue o caminho da lógica e mesmo do interesse prioritário da nação. No entanto, esta deveria ser a primeira preocupação das autoridades: colocar os interesses do País e de seu povo em primeiro lugar. Na verdade, isto dá frutos. O povo sufragou com grande maioria o atual presidente por causa dos resultados do programa de estabilização. E um bom trabalho nestes últimos dois anos será melhor para dar credibilidade ao governo do que qualquer outra coisa.





