Quando, na campanha eleitoral do republicano George W. Bush, foi utilizada uma propaganda de televisão para atacar o candidato democrata, Al Gore, na qual por uma fração de segundo podia-se ler a palavra ‘‘ratos’’, alguns perceberam de imediato a podridão do assunto. Os encarregados da campanha presidencial de Gore denunciaram que esse anúncio foi um sujo estratagema destinado a influir subliminarmente sobre os eleitores norte-americanos, sugerindo-lhes que os democratas eram uns insetos indignos de crédito.
A equipe eleitoral de Bush não foi a primeira a considerar a possibilidade de utilizar projeções subliminares para fins eleitorais. Em meados dos anos 50, o então vice-presidente Richard Nixon (também republicano) interessou-se quando ficou sabendo que a Agência Central de Inteligência (CIA) realizava testes de manipulação subliminar com propósitos de espionagem. Nessa época, sob os auspícios do programa supersecreto MK-Ultra, foram realizadas experiências de condicionamento subliminar que compreendiam somente um aspecto de uma extensa investigação da CIA durante a Guerra Fria, destinada a explorar uma ampla série de técnicas de controle da mente e de modificação do comportamento humano.
Inicialmente, os psicólogos da CIA estudaram cuidadosamente como as mensagens subliminares podiam provocar hipnose. ‘‘Para diminuir a resistência de um indivíduo a um processo de indução hipnótica – dizia um documento secreto – pode ser considerado o uso de estímulos subliminares.’’ Os funcionários da CIA estavam intrigados pela perspectiva de que imagens subliminares de uma fração de segundo, capazes de iludir a mente consciente, pudessem ser utilizadas como ferramentas de persuasão em massa. Os cientistas do programa MK-Ultra compreenderam que a televisão e os filmes eram particularmente adequados para uma intromissão subliminar nas mentes. Um memorando da CIA, datado de 21 de novembro de 1955, assinala como ‘‘o enfraquecimento geral da consciência durante a projeção da imagem facilita psicologicamente o fenômeno da identificação e da sugestão como na hipnose’’.
Referindo-se a uma experiência realizada em 1956 em um cinema de Fort Lee, no Estado de Nova Jersey, outro documento da CIA estabelece que a manipulação subliminar ‘‘conseguiu algum êxito em anúncios comerciais como ‘‘Coma Pipoca’’ ou ‘‘Beba Coca-Cola’’, projetado nas telas de alguns cinemas durante 1/3000 de segundo, em intervalos de cinco segundos. Em certa ocasião, segundo o ex-agente dos serviços secretos dos Estados Unidos, William R. Corson, o público de um cinema em Alexandria, na Virginia, foi instado a ‘‘comprar pipoca’’, mas, em lugar de adquirir pipoca, muitos dos assistentes fizeram fila no bebedouro porque, ao que parece, a sugestão os fez sentir sede.
Em seu livro de 1977 intitulado ‘‘Armies of Ignorance’’, Corson conta o ocorrido quando o então vice-presidente Nixon se inteirou da ‘‘travessura’’ da CIA com a pipoca. Segundo Corson, Nixon sugeriu que tal estratagema poderia ser ‘‘politicamente útil’’. Nixon nunca explicou se realmente quis, ou chegou a usar, técnicas subliminares durante algumas de suas campanhas eleitorais. E a CIA permaneceu em silêncio sobre o assunto. A maioria dos documentos do MK-ULTRA foi destruída sumariamente por uma das últimas ordens do chefe da CIA, Richard Helms, em 1973. Os papéis foram picados por causa de ‘‘um problema com o excesso de papéis’’, segundo Sidney Gottlieb, o agente secreto que dirigiu o programa MK-Ultra. Gottlieb admitiu isso ao depor como testemunha na audiência do Senado em 1977 sobre os escândalos da CIA na questão do controle da mente. Gottlieb nunca foi interrogado exaustivamente sobre a pesquisa da CIA a respeito da manipulação subliminar.
Porém, talvez este não seja o fim da história referente à espionagem norte-americana e à manipulação subliminar. Um rico filão para os fãs das conspirações produzidas por Hollywood. Um dos filmes mais populares da década de 70 foi ‘‘O Exorcista’’, baseado na novela best seller de William Blatty, um ex-agente operacional da CIA que trabalhou sob a cobertura da Agência de Informações dos Estados Unidos nos anos 50. Como se viu, os estímulos subliminares – máscaras de morte, caveiras em decomposição e rostos deformados pelos gritos – estão espalhados ao longo do filme. Um porta-voz da Warner Brohters, que produziu o filme – que reestreou recentemente com muita propaganda – admitiu a presença dessas imagens subliminares, mas minimizou seu significado afirmando: ‘‘Pensamos que era do conhecimento de todos.’’
Entretanto, a Federal Communications Commission (FCC) iniciou uma investigação sobre possíveis infrações subliminares relacionadas com o anúncio de televisão da campanha eleitoral de Bush com a palavra ‘‘ratos’’. As diretrizes da FCC, que se aplicam à TV e ao rádio mas não a toda a indústria cinematográfica, condenam o uso de técnicas subliminares por terem ‘‘intenções enganosas’’.
- MARTIN A. LEE é escritor em São Francisco (California/EUA), autor dos livros ‘‘The Beast Reawakens’’ e ‘‘Acid Dreams’’ (IPS)

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