A sedução do poder
Nos jogos da política como nas artes do amor, impera a sedução, e não há nenhum político vitorioso que não seja de algum modo um sedutor das massas. Por outro lado, nada seduz mais os homens do que o poder, pois só através de sua obtenção sob qualquer forma ou grau o ser humano pode ser feliz. Não de forma absoluta, pois o absoluto não pertence à humanidade, mas de maneira que mesmo sendo parcial a felicidade se consuma na satisfação imediata daquilo que se desejou.
Sobre esse tema filosofou um inglês de nome Thomas Hobbes em sua obra O Leviatã, escrita em tempos idos que refluem ao ano de 1651: O que se chama felicidade existe quando nossos desejos se realizam com êxito constante. O poder é a condição sine qua non desta felicidade. Riquezas, ciência, honra, são apenas formas de poder. Há no homem um desejo incessante de poder que só termina com a morte.
Assim, mudam as formas de governo, evoluem os sistemas políticos, transformam-se as instituições, mas a busca de felicidade através do poder continua a mesma, como se o dilema ter ou não ter poder fosse a mola mestra que impulsiona as engrenagens sociais através dos conflitos, das competições e das rivalidades.
No passado, a política, além de ser a arte da retórica, passava pela conquista de territórios através do uso da força que presidiu a formação dos Estados e era canalizada através das guerras. No presente, permanecem apenas focos de lutas localizadas que ainda ardem sob o fogo da destruição e da violência, mas na maior parte do mundo a conquista do poder político inclui muito mais a arte da sedução do que o uso das armas, e a conquista é feita pela via eleitoral, um sucedâneo das antigas guerras onde a coragem era provada nos embates pessoais e sangrentos, e hoje na disposição de concorrer às urnas.
Partidos políticos se tornam então uma espécie de exércitos modernos, nos quais os armamentos são substituídos pelas palavras, cujos efeitos nos adversários não são menos cortantes. No lugar dos estrategistas surgem as empresas de marketing, e as batalhas se travam sobretudo no campo dos meios de comunicação.
No mais, o mesmo tipo de mágico da palavra, que por meio das maquinações da eloquência de que dispõem também os poetas, é capaz de persuadir e seduzir, continua a pontificar nos caminhos que conduzem ao poder, como outrora o fizeram os grandes oradores gregos e romanos.
De qualquer modo, tanto ontem quanto hoje prevalecem três leis do poder, ou tendências regulares que se repetem ao longo do tempo e das sociedades na esfera da política: 1ª) O poder degenera; 2ª) O poder corrompe; 3ª) O poder desgasta. E é a partir dessas leis que se pode perguntar qual o grau de renovação que existe quando se processam trocas de governos através de processos eleitorais ou de meios arbitrários.
Se tomarmos as últimas eleições municipais, algumas já desfechadas no primeiro turno, outras por se completar, deparamos com resultados que saltam de imediato aos olhos através dos dados do TSE. Sobre essa quantificação de derrotas e vitórias se debruçam os analistas, e de fato tal metodologia apresenta na sua objetividade estatística a possibilidade de descortinar avanços e recuos daquilo que alguns chamam de esquerda e direita, e que prefiro denominar de situação oposição por conta da fluidez dos nossos partidos políticos, esses clubes de interesses sem o menor teor ideológico, consistência programática ou disciplina. Entretanto, há algo que vai além da abordagem numérica, a qual reduz a realidade política apenas ao que é mensurável.
Com relação aos dados do TSE, observa-se que o resultado que emergiu das urnas no primeiro turno demonstra que os principais partidos aliados ao governo federal ou seja, o PSDB, o PMDB e o PFL, mantiveram sua hegemonia eleitoral conquistando votos absolutos em 19 dos 26 Estados brasileiros. O PSDB venceu em 8, o PMDB em 6 e o PFL em 5 Estados. Portanto, os governistas conquistaram 77,44% das prefeituras, tendo eleito 4.231 prefeitos, e a oposição, 13,68%, com 756. Ficou também evidente o avanço da oposição, sobressaindo-se o PPS, que passou de 33 prefeitos em 1996 para 164 em 2000. E o PT, que teve um aumento de 51,2% sobre 1996.
De certo modo, o Partido dos Trabalhadores foi favorecido pela onda de moralização que varreu o País. A partir da áurea de honestidade que cerca mitologicamente essa agremiação partidária, e do apoio da Igreja Católica e de igrejas evangélicas, o PT se utilizou da visão maniqueísta e assumiu o bem em detrimento do mal encarnado pelos adversários, sendo que a polarização que existe no segundo turno acentuou ainda mais essa visão confessional, onde quer que os petistas concorram em todo o Brasil.
Acrescente-se que o fato de que o PT, pelo menos durante as campanhas, deixa de lado a linguagem revolucionária para se enganjar num discurso menos assustador para as elites, mais moralista para as classes médias e mais adequado aos tempos que correm, quando se torna difícil assumir uma postura socialista radical diante da afirmação mundial do liberalismo e da sua decorrência política, a democracia.
Portanto, o PT vai se transformando aos poucos nos que os outros partidos políticos brasileiros já são, os catch-all-parties (partidos agarra-tudo). Surgidos na Europa na década de 60, esse tipo de partido tem como objetivo captar o máximo de votos, atrair eleitores diversos e até contraditórios, e não assumir uma ideologia precisa. E por conta disso, o Partido dos Trabalhadores se converte de partido de massa onde o recrutamento é maciço, a doutrina rigorosa, a organização rígida e conduzida por uma direção emanada da base em partido agarra-tudo, quer dizer, com eleitorado heterogêneo, programa vago e direção extrovertida.
Acrescente-se o fato de que o PT começa a emergir como oposição substituta do PMDB, que em 1982 saiu-se vitorioso em vários Estados mas incorreu no poder numa série de erros que antes tinha condenado. Isto levou o presidente do partido, Ulysses Guimarães a dizer: Fomos durante 20 anos oposição, e agora não sabemos ser governo. Acautele-se, pois, o PT com a sedução do poder, pois este inevitavelmente degenera, corrompe e desgasta.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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