A seca – que é crônica no Nordeste do País e cíclica nas demais regiões – está produzindo sérios problemas para o Centro-Sul e Sudeste do Brasil. Se no passado a falta de chuvas produzia danos só para a agricultura, hoje ela afeta outros setores. Atualmente, a falta de água cria dificuldades para imensas regiões urbanas, notadamente a Grande São Paulo, além de haver, igualmente, perspectivas ameaçadoras para a produção de eletricidade. A possibilidade de racionamento de energia, atualmente, é grande, o que põe em risco a produção industrial, sem contar, naturalmente, os efeitos danosos desta situação sobre a vida do cidadão. Assim como mudaram as coisas em relação aos efeitos que a seca pode produzir no País, também é possível perceber que ponderável parcela de responsabilidade por esta mudança climática, com a redução das chuvas em regiões que não sofriam antes deste problema, cabe ao homem que está destruindo o seu habitat.
Estudo publicado recentemente, sob a responsabilidade do professor Daniel Rosenfeld, da Universidade Hebraica de Jerusalém, indica que nuvens de poluição provenientes de fábricas e outras fontes podem impedir a ocorrência de chuvas em determinadas áreas. O cientista afirma, em entrevista ao conceituado jornal Science, que dados de satélites mostram que as altas concentrações de poluição expelidas por fábricas na Austrália, Canadá e Turquia continuam a existir mesmo depois de levadas pelos ventos, a milhas de distância dos centros industriais. Rosenfeld afirma que a umidade do ar é condensada nessas partículas mas nunca forma gotas grandes o suficiente para chegar ao chão como chuva ou neve. Partículas naturais na atmosfera têm um papel muito importante na formação de precipitações, mas estas partículas são maiores do que as expelidas pela fumaça das estações de força, conforme o citado trabalho.
O cientista ressaltou que os instrumentos que colheram dados na região de uma estação de força em Adelaide, na Austrália, mostram que a chuva se condensou e caiu de nuvens naturais, enquanto a fumaça produzida nas fábricas próximas não causou qualquer precipitação. Os dados do satélite forneceram evidências ligando a poluição industrial e urbana do ar às redução das chuvas, assinala o autor do trabalho, concluindo que tais resultados podem indicar que a atividade humana deve estar alterando as nuvens e a precipitação natural em escala global. Owen Toon, cientista da Universidade de Colorado, disse que o estudo de Rosenfeld irá ajudar os pesquisadores a entender como os aerossóis e a poluição levada pelo vento afetam as nuvens de chuva.
Além desta constatação, há também a observação feita pelos especialistas diante da seca que agora atinge São Paulo, com uma clara conclusão: a ocupação desordenada das margens dos rios e das comportas, a destruição na vegetação das bacias hidrográficas, efeitos da ação humana, também podem ser apontadas como responsáveis por esta mudança no clima. A Organização não-governamental Instituto Socioambiental assinala que tem chovido muito mais que a média histórica de São Paulo, nos últimos tempos. Apesar disto, o nível da represa de Guarapiranga, que abastece 3 milhões de habitantes de São Paulo, baixou para menos da metade de seu nível máximo. E a causa desta situação é, conforme os especialistas, o abuso humano. Isto significa que para enfrentar tal desafio, será preciso que haja uma efetiva conscientização sobre o papel do homem na destruição do meio ambiente, com a necessária mudança de postura e atitude para evitar que a seca se torne crônica em todo o Brasil.

mockup