A saúde do povo é a suprema lei, apregoava o prefeito Dalton Paranaguá quando cheguei a Londrina em 1971. Atualmente é bem conhecido o “efeito Bolsonaro” sobre a redução do interesse da população pelas vacinas, inclusive agora, no outono, pela vacina contra a gripe. O problema não se limita à vacinação, mas estende-se – despercebidamente – ao menosprezo injustificável à pandemia silenciosa de hipovitaminose D – que está entre nós –, negligenciando-se os baixos níveis de vitamina D3 no sangue da população e, assim, contribuindo decisivamente para a vulnerabilidade das pessoas às infecções respiratórias agudas e suas complicações até mortais.

Constitui dado oficial o de que o déficit de vitamina D3 atinge mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo e mais de 50% dos brasileiros (80% dos idosos), sendo essa carência devida à insuficiente exposição à luz solar (única fonte natural desse hormônio) ou à falta de suplementação adequada de vitamina D3 por via oral.

Essa vulnerabilidade das pessoas às VRA acentua-se no outono, quando a umidade relativa do ar é mais baixa, ressecando as mucosas respiratórias e facilitando a adesão dos vírus às células e às infecções. Ao lado do vírus sincicial respiratório e o da gripe, há centenas de outros vírus capazes de causar infecções respiratórias (adenovírus, rinovírus, coronavírus etc.). Para a proteção dessas doenças (rinite, faringite, amidalite, faringoamidalite, laringite, traqueíte, bronquite, bronquiolite e pneumonia) não existem vacinas, exceto para a gripe e para as infecções pelo vírus sincicial respiratório.

Conforme dados oficiais recentemente publicados, já foram confirmados no Brasil, neste ano, 28.363 casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), 27,4% atribuídos ao vírus da influenza A (para o qual existe vacina) e 45,3%, aos rinovírus, para os quais não há vacina disponível. Quanto à mortalidade, o vírus da influenza A foi responsável por 36,9% dos óbitos e os rinovírus por 30,0%. A incidência da SRAG foi mais elevada em crianças e as mortes ocorreram predominantemente nos idosos.

A partir do conhecimento dessas informações relacionadas com as viroses respiratórias agudas e a SRAG, é fácil deduzir que é urgente a necessidade de os órgãos responsáveis pela saúde pública do Brasil colocarem em prática outras medidas para prevenção dessas doenças, além das duas vacinas citadas, das quais somente a vacina contra a gripe é disponibilizada gratuitamente pelo SUS. O que fazer?

Como infectologista e imunologista experiente, nos sentimos no dever de divulgar e ressaltar que a única alternativa profilática que resta – mal conhecida pelos médicos em geral e pelos gestores de saúde pública – é a vitamina D, com as autoridades de saúde pública passando a recorrer a essa prática profilática cientificamente bem fundamentada, de baixo custo e de implementação relativamente fácil, com a finalidade de promover proteção natural e efetiva contra as viroses respiratórias agudas. Assim se poderá potencializar a imunidade inata e, ato contínuo, reduzir muitíssimo a incidência das viroses respiratórias agudas. Para alcançar esse objetivo, a concentração ideal de vitamina D3 no sangue a ser atingida deve ser superior a 50 ng/mL (entre 50 e 80 ng/mL), obtida – na situação de emergência em que nos encontramos – através de suplementação com colecalciferol por via oral, em doses e esquemas adequados, prescritos em atendimento ambulatorial por médicos dos postos de saúde, treinados e orientados para cumprir essa missão com segurança e rigor científico.

Enquanto o ministério e as secretarias de saúde redobram seus esforços para vacinar o maior número de pessoas contra a gripe, não podem deixar de reconhecer que só isso não basta. Há muito mais para fazer – de forma simples, segura e com pequenos gastos. É só ter olhos para ver, ouvidos para ouvir e.... vontade política para fazer. Para que possamos ainda afirmar, conforme o Dr. Dalton Fonseca Paranaguá, que “a saúde do povo é a suprema lei”.

José Luis da Silveira Baldy, médico em Londrina

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