As elites brasileiras não mudam, apenas refazem, de tempos em tempos, o seu discurso conservador. O discurso conservador precisa, para esse seu refazer, de monstros que assustem a classe média e a população mais pobre, mantida sempre na ignorância mais completa, sem acesso à informação ou mesmo uma educação decente.
Esse processo não é de hoje, vem dos tempos do império, passou pela formação da República (Antônio Conselheiro e Zumbi não são exemplos de satanizados pela elite?), regime militar e agora na democracia planejada por Golbery do Couto e Silva (aliás, cada vez mais atual).
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é a bola da vez no processo de satanização. A mídia brasileira se deleita com denúncias de que líderes do MST cobram pedágios para créditos rurais. Não seriam também pedágios as taxas de intermediação que as cooperativas agrícolas e os bancos cobram para liberação de créditos?
Assim como já se temeu o comunismo, a estrela vermelha do PT (não teve sequestrador com camisa do PT há pouco tempo atrás?), agora o MST aparece como o grande Satã a ser exterminado, em uma das mais fundamentalistas campanhas da mídia contra um movimento popular.
Planejada no Palácio do Planalto, por Andrea Matarazzo (o homem dos bastidores de FHC na mídia) essa campanha de satanização foi logo encampada pelo jornalões, redes de TV e pelas revistas, especialmente ‘‘Veja’’.
E, fenômeno totalmente brasileiro, essa campanha foi logo assumida por alguns ditos intelectuais universitários e pseudo-escritores, como no Paraná, onde um socióloga e um procurador do Estado usam a mídia para, rançosamente, atacar o MST e a reforma agrária.
O curioso é o argumento: somos a favor da reforma agrária, mas não da violência do MST, que desrespeita as leis. Ora, ora, ora, cara-pálida, quais leis? Criadas por quem e para quem essas leis? Será que não conhecem a história de que as leis são feitas para atender à elite? Cabe aos movimentos organizados, através da pressão popular e de formas de lutas específicas de cada movimento, romper essa barreira legal.
Vale lembrar que, através de suas formas de luta, o MST já conseguiu jurisprudência contra o crime de esbulho possessório nas ocupações. Uma prova de que só a organização popular modifica as leis da elite. (Acórdão do Superior Tribunal de Justiça).
Mais curiosa ainda é a forma que grande parte da elite intelectual se comporta com relação ao MST: indiferença ou rançosamente contra. Acompanhando como jornalista a questão agrária no País desde 1985, tenho percebido que não é essa a posição das universidades americanas e européias com relação ao movimento popular chamado MST.
Em Corumbiara (RO), no Mato Grosso do Sul, no Pontal do Paranapanema (SP) e no próprio Paraná, por diversas vezes encontrei mestrandos e doutorandos americanos e europeus pesquisando – in loco – o fenômeno sem-terra.
Conversando com esses acadêmicos americanos pude descobrir que o Departamento de Estado Americano estuda, há 10 anos, o MST. A razão para esse olhar do poder americano para os ‘‘baderneiros’’ do MST: é o movimento popular, de massa, mais importante dos últimos 30 anos na América Latina. Isso na ótica deles, os gringos.
Aos invés de ir a campo, analisar as causas que propiciaram o surgimento do MST (originado pela organização dos excluídos do ‘‘milagre’’ do regime militar) e pensar um futuro harmônico para o Brasil, a mídia e a elite fazem o mais fácil: satanizam o movimento.
É claro, não sejamos ingênuos, essa satanização tem um interesse imediato, que é barrar o avanço das forças progressistas nestas eleições municipais. Mas não só de eleições vive um país na luta para se transformar em Nação. E as elites devem mais essa (a satanização do MST) no rol de dívidas para com a população brasileira. E, tenham certeza, doutores, a cobrança virá.
- JOSÉ MASCHIO é jornalista em Londrina

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