A Sarney o que é de José
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de março de 1997
José Nêumanne 
Recentemente, participei de
uma entrevista no programa Roda Viva (na Rede Cultura) com a presidenta da Acadêmia Brasileira de Letras. Nélida Pi¤on. Ali surgiu com frequência uma questão: o que faz o ex-presidente José Sarney entre os mortais? Nélida buscou uma explicação onomástica: não existe uma Academia Brasileira de Letras, conforme registrei acima e virou costume em tudo quanto é transmitido por rádio e televisão ou impresso nos jornais e revistas. Como a Francesa, a Academia é Brasileira, e ponto. As Letras entraram nos usos e costumes, mas nunca constaram da denominação oficial.
A outra explicação é histórica e tem a ver com as origens do egrégio clube. Todos exigem de seus membros prática e competência no manejo literário, talvez por causa da presença marcante de seu primeiro presidente, Joaquim Maria Machado de Assis, o maior dos escritores brasileiros em todos os tempos, um dos maiores do mundo em qualquer língua na virada do século. Mas outro protagonista da primeira composição da Academia, o pernambucano Joaquim Nabuco, fez história como político e tribuno, não como literato, embora tenha produzido dois livros antológicos, Minha Formação e Um Estadista do Império. Esse lado não literário da Academia já admitiu a presença de Getúlio Vargas entre os imortais. Por que não Sarney?
No tumulto de perguntas e respostas do programa, faltou ocasião para ser feita justiça com uma constatação que certamente surpreenderia os telespectadores indignados com a intrusão de políticos na Casa de Machado de Assis. Tal observação, infelizmente, não ocorreu à própria entrevistada. Mas, na verdade, José Ribamar de Araújo Costa talvez tenha até penetrado na Academia pela força conseguida na carreira política, que incluiu uma passagem pela Presidência da República. Não teria sido o primeiro nem será o último a fazê-lo. No entanto, em sua obra literária reconheço méritos suficientes para lhe permitir a partilha do chá das cinco com quase todos os profissionais da literatura que comparecem a esse encontro notório.
Uma rápida leitura de Os Maribondos de Fogo (1978), mostra não ser tarefa fácil defender o livro da fúria incontida dos críticos, que se aproveitaram do pitoresco do título para falar mal do autor, homem público na diletância da poesia. Mas os contos de Norte das Águas (1969) mereceram melhor aceitação nos tempos em que o jovem ex-governador udenista do Maranhão ainda era mais conhecido como um mecenas recente do Cinema Novo brasileiro. E mais ainda: O Dono do Mar (1995), seu último romance, está entre os melhores textos literários publicados recentemente no Brasil. Não bastasse o fato de ter passado pelo crivo exigente do editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Siciliano, que o publicou, o livro foi acolhido com entusiasmo na França.
Não havia a necessidade do aval de Claude Lévi-Strauss e Maurice Druon, da Academia Francesa, para justificar este artigo, cuja intenção é tentar repor as coisas em seu devido lugar, evitando aquela velha mania brasileira, bem resumida na notória frase do Oswald de Andrade (aliás, por ironia, um autor não muito lido e menos ainda entendido). Não li e não gostei. Mas a acolhida da tradução francesa do romance brasileiro bem a propósito para a reafirmação de verdades velhas, mas, nem por isso, muito difundidas:
1 - Não existe uma relação indissolúvel entre a vida do autor e sua obra. Céline era anti-semita e, ainda assim, não deixou de ser um dos mais inovadores romancistas da literatura francesa neste século. Ezra Pound chegou a ser preso por causa de suas simpatias pelo fascismo, mas isso não reduz em um milímetro a importância de sua obra crítica e de sua produção poética. Um dos maiores poetas de todos os tempos, Arthur Rimbaud, foi contrabandista de armas. Nada do que alguém faça pode destruir uma reputação literária.
2 - Nem sempre o politicamente correto é literariamente importante, e viceversa. O romance O Dono do mar é muito melhor do que Maíra. Mas isso não quer dizer que um autor tenha tido uma atuação mais ou menos útil do que o outro no Senado, onde José Sarney e Darcy Ribeiro foram colegas.
3 - Não é sensato criticar uma obra, seja de quem for, sem antes conhecê-la, limitando tal conhecimento ao noticiário, nem sempre muito preciso, sobre atividades do escritor alheias à escrita em si. Tal atitude pode produzir uma conversa em mesas de bar, mas não contribui em nada para a cultura em geral e o aprendizado particular de quem a adota.
4 - A língua não tem dono. Ela é um patrimônio coletivo, que precisa ser amado com devoção e protegido de quaisquer ataques, venham de onde vierem. Como a bandeira brasileira, a moeda (o real) e o território nacional, a última flor do Lácio (inculta e bela) precisa ser tratada com desvelos de mãe e carinhos de amante. A academia é um dos instrumentos de que a Pátria dispõe para garantir sua permanência. Por tudo quanto tem feito em benefício do vernáculo, não há motivos para condenar a presença do ex-presidente entre seus membros.


