A salvação da lavoura é a lavoura
Victor Hugo Agudo Romão
A quebra da Bolsa de Nova York em 1929 derrubou os preços de nosso principal produto de exportação na época, o café, em 62% até 1931. Com isso, a economia brasileira viveu grandes dificuldades. No entanto, como mostra Celso Furtado, o maior economista que o Brasil já teve, a desvalorização cambial e a queima do café tiveram importante papel na manutenção da renda monetária e permitiram que o Brasil saísse da crise já em 1933.
O Brasil vive hoje uma grave econômica em que a redução dos preços internacionais de nossas commodities é parte importante da redução do poder de compra internacional do país. Nos últimos 3 anos, a cotação internacional de nossos produtos teve expressiva desvalorização nas bolsas internacionais, especialmente milho (-49,09%), soja (-39,30%), açúcar (-30,38%) e café (-18,64%).
No 5º levantamento da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) foi apontado que a safra mundial de soja 2015/16 chegará a 319,6 milhões de toneladas, enquanto o consumo mundial será de apenas 310,1 milhões de toneladas, ampliando os estoques do produto. Já a oferta de açúcar está equilibrada, após ter ficado acima da demanda desde 2010.
Assim como em 1929, a desvalorização cambial teve papel importante para evitar uma quebradeira no campo. Mas a queda dos preços internacionais de nossas commodities não obteve nenhuma medida para sua contenção.
A verdade é que desde 1929 aprendemos um jeito muito mais inteligente de queimar o excesso de oferta de nossos produtos agrícolas. Com o etanol e o biodiesel, nossos carros e caminhões podem queimar o excedente desses produtos ampliando o emprego e a renda, ajudando no esforço fiscal e na melhoria do meio ambiente.
A capacidade instalada para a produção de biodiesel chega a 7,5 bilhões de litros por ano, mas produzimos apenas 3,9 bilhões de litros por ano, o que indica a possibilidade de adotarmos a mistura de 10% de biodiesel no diesel e iniciarmos o processo para chegarmos a 20% até o final da década. Colabora para isso a pequena diferença de preços do biodiesel em relação ao diesel que hoje é de menos de 10% em muitas regiões do país.
Trabalho publicado pelo economista Joaquim Guilhoto, professor titular de economia da FEA-USP, mostra que adição de 20% de biodiesel ao diesel pode gerar mais de 500 mil empregos no país. Além disso, os valores gerados com a exportação do farelo de soja podem ser equivalentes aos ganhos com a redução na importação de diesel.
O aumento da Contribuição sobre Intervenção no Domínio Econômico (Cide) é outra medida que pode aumentar o dinamismo no campo, pois eleva a rentabilidade dos canaviais e a produção de etanol, reduzindo os excedentes de açúcar no mercado internacional.
No etanol, possuímos capacidade instalada para produzir diariamente 111 milhões de litros de etanol anidro para a mistura com a gasolina e 205 milhões de litros para etanol hidratado, mas o consumo encontra-se estagnado em cerca de 24 bilhões de litros desde 2009, o que permite uma expansão em torno de 40% na produção de etanol hidratado.
Desta forma, a aposta nos biocombustíveis pode ser uma saída para a grave crise econômica que vive o país com impactos de até 1 ponto percentual no PIB e a reativação do dinamismo econômico em muitas regiões do Brasil.
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