A salvação da lagosta

J. Roberto Whitaker Penteado
Não sei exatamente como se chama isso que estarei fazendo no artigo de hoje. Plágio? Quase. Apropriação indébita? Não exatamente...
Explico: li, no Herald Tribune de 11/12 de março, um relato absolutamente importante e comovente, assinado por Dave Barry, que quero compartilhar com os amigos. Mas, ao mesmo tempo, quero inserir o assunto em marketing e comunicação, porque ele trata da nova mídia (indefinida, no contexto) e de novos meios de distribuição - e também de comportamento do consumidor. Vamos à história.
Numa quinta-feira à noite, Dave recebeu um telefonema do seu escritório. Alguém lhe havia mandado, anonimamente (na caixa não havia remetente assinalado) de presente, do estado do Maine, uma lagosta. Viva.
Acontece que ele é uma dessas pessoas que não comem lagostas. Pior: para ele, uma lagosta é um grande inseto, certamente parente muito próximo da criatura que vive perseguindo Sigourney Weaver nas espaçonaves... Sua primeira reação foi imaginar que deveria haver alguma lei proibindo as pessoas de enviar lagostas não-solicitadas.
Sua secretária ofereceu uma solução prática: ela ficaria com a lagosta e a usaria num jantar. Mas Dave viu-se tomado de uma certa compaixão por aquele ser, que, embora estranho, ainda vivia e mexia as antenas, numa caixa cheia de gelo – um sentimento não totalmente isento de nuances politicamente corretas.
Pegou o carro e dirigiu-se ao escritório (no Miami Herald), disposto a soltar a lagosta em algum ponto da costa da Flórida. Como bom americano, consultou o especialista em esportes aquáticos (pescaria é um deles), no jornal e foi informado de que sua lagosta (que, mentalmente, já havia batizado como Duane) era de uma espécie de água doce.
Que fazer?
Ocorreu-lhe uma solução meio desesperada. Tinha, no estado do Maine, um casal de bons amigos: Tom e Pat Schroth. Quem sabe, eles não poderiam soltar Duane em algum lugar seguro? Embora achando um tanto estranho, seus amigos concordaram com o pedido, feito por telefone.
Com Duane na caixa, na poltrona do lado, Dave dirigiu-se a uma agência de courrier, em Coconut Grove, onde os gerentes - Rod e Judy Heflin -, para seu merecido crédito, não se opuseram a fazer o despacho de Duane de volta ao seu estado natal.
Mas a pergunta era: Duane resistiria? Afinal, existe um mercado para pessoas que querem mandar, para outras pessoas, lagostas vivas, de presente. Mas as viagens de ida-e-volta não são comuns. A consulta ao especialista da seção de ciência do jornal foi pouco encorajadora: Duane certamente não resistiria, fora do seu habitat, às outras 24 horas estimadas para o transporte de retorno - mesmo sendo aéreo e classificado como urgente.
Dave Barry passou horas de angústia, como se estivesse na ante-sala do hospital, esperando notícias de um parente próximo.
E elas chegaram – em forma de e-mail. Contando como Tom e a filha, Jennifer, haviam levado Duane, em sua caixa, para o porto fluvial de Sedgwick Town. Nevava bastante e as trilhas dos barcos que deslizaram para a água serviram de caminho para que se aproximassem da água. Liberaram, finalmente, Duane do seu cárcere de cartão, certificaram-se de que continuava viva, não havia elásticos prendendo suas pinças e aproximaram-no da água. Duane abanou a cauda e jogou-se, feliz, nas águas do Rio Benjamin. Os amigos juram que acenou para ambos, antes de mergulhar.
As estimativas dos especialistas são de que há cerca de 1 bilhão e meio de lagostas no sistema aquático do Golfo do Maine. Quais as probabilidades de uma delas – depois de pescada – voltar para casa?
Pois acho que, ignorando probabilidades estatísticas, também nos tornamos mais humanos.
J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (RJ) - Email:jrwp@espm-rio