Dia destes, ‘‘The Wall Street Journal’’ trouxe uma matéria interessante de Lisa Miller. Observava a jornalista que os limites das religiões desapareceram nos cultos modernos, e referia-se à atual fase da espiritualidade nos Estados Unidos como ‘‘a era da salada religiosa’’. Para referendar sua argumentação, ela citava alguns depoimentos tais como: ‘‘Eu sou membro da Igreja Episcopal e me considero uma judia não-praticante’’ (Katherine Powell Cohen, 36 anos, professora de inglês em São Francisco). ‘‘Eu sou um menonita (integrante de uma seita evangélica criada na Holanda) e universalista unitário que pratica meditação zen’’ (Ralph Imhoff, 57 anos, pedagogo aposentado do Arizona). ‘‘Eu me chamo de budista-cristã, mas mais relaxada’’ (Maitreya Badami, 30 anos, trabalha no escritório da Defensoria Pública de Contra Costa, na Califórnia).
Será isto exagero? Parece que não, já que o próprio Dalai Lama chamou os Estados Unidos de ‘‘supermercado espiritual’’. Mesmo porque, neste país a salada da fé está de tal modo sendo consumida que, por exemplo, a frequente mistura de judaísmo com budismo já fez aparecer uma nova categoria religiosa: ‘‘Jewbu’’, que podemos traduzir por Judbu.
Ao mesmo tempo, segundo Lisa Miller, ‘‘pastores usam escrituras das religiões ocidentais e orientais nos seus sermões de domingo e casam pessoas que vêm de diferentes religiões’’. Ela se refere também a ministros episcopais que ornamentaram sua igreja, com um santuário Xintó e gongos tibetanos. Eles se apresentam nos seus cultos com batas africanas de batique, e incluem na cerimônia uma sh’ma - oração judaica. Na hora da comunhão, as pessoas dançam, e naturalmente os fiéis adoram este culto, sendo que a congregação já dobrou de tamanho.
Mas será nossa realidade religiosa muito diferente? Com certeza, não. Aliás, nosso sincretismo religioso começou bem antes. Foi iniciado com a proibição dos cultos africanos pelos padres. Entretanto, os escravos conseguiram uma jeito de cultivar seus ritos ancestrais sem perigo de castigo: colocavam uma imagem de Santa Bárbara na senzala, mas reverenciavam Ianssam; erguiam um altar para Nossa Senhora, mas lá estava Iemanjá. E, assim, aos poucos, crenças católicas e de religiões africanas foram se mesclando. Como evidência do sincretismo, até hoje muita gente vai à missa pela manhã e à noite joga flores para Iemanjá, ou se realiza nalgum terreiro ao som dos atabaques.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, originalmente uma outra mentalidade se implantou, impulsionada pelas igrejas protestantes tradicionais. Esta mentalidade será analisada por Max Weber em sua obra clássica, ‘‘A ética protestante e o espirito de capitalismo’’. No livro, o sociólogo alemão observou que os protestantes eram mais bem-sucedidos do que os católicos (e os judeus mais que os protestantes).
A explicação de tal fenômeno residia na associação da ética protestante - onde sobressaíam atitudes e valores tais como austeridade, hábitos frugais, trabalho metódico, honestidade, racionalidade - ao conceito calvinista de ‘‘eleição’’, ou seja, a evidência da escolha e da benção de Deus através da prosperidade de alguns dos seus filhos. E como, segundo a vontade de Deus, os homens devem trabalhar mas não cobiçar o fruto do trabalho, esses frutos devem ser constantemente reinvestidos para permitir mais trabalho. De acordo com o artigo de Lisa Miller, porém, mesmo as igrejas protestantes tradicionais estão desenvolvendo outros padrões de comportamento.
Quanto a nós, creio que não ficamos atrás em salada da fé. Se ainda não existe um santuário Xintó coexistindo com os altares dos santos na igrejas, (será que já não existe?) modelos afro tomam conta dos paramentos sacerdotais, e os sons do candomblé, antes considerados coisa do demônio, invade as missas. O Carnaval também já não é a moradia provisória do pecado, e o jovem e carismático em todos os sentidos, Padre Marcelo, arrasta multidões atrás do trio elétrico, enquanto canta e dança sua aeróbica de Jesus. Ao mesmo tempo, católicos desenvolvem crenças paralelas à sua, ou simplesmente se evadem para alguma igreja evangélica.
Evidentemente, existe no Brasil uma considerável massa de católicos praticantes, e a previsão feita por Nélson Rodrigues na década 60, de que seríamos a maior Nação não-católica do mundo, ainda não se realizou. Afinal, existe o esforço da Igreja para manter seu rebanho, baseado em três grandes ramificações capazes de contentar uma gama diferenciada de fiéis: a tradicional, a político-revolucionária ou Teologia da Libertação, e a carismática, muito semelhante ao pentecostalismo, e que vem aumentando consideravelmente.
Enquanto isto, a CNBB, mantendo a tradição na qual os reinos político e espiritual se fundem, lança mais uma Campanha da Fraternidade, enfatizando a questão do emprego que está na ordem do dia das preocupações. Algumas das sugestões da CNBB já estão concretizadas; outras dificilmente poderão ser postas em prática; algumas, ainda, podem ser danosas em vez de ajudar a maioria da população, como aquela de coibir as importações. Ao final, a campanha se resumirá mais uma vez em reconfortantes slogans ‘‘rezados’’ durante as missas.
Entrementes, a globalização e os meios de comunicação continuarão a gerar seus efeitos, mesclando cultos e crenças. Se isto significa uma maior banalização da fé de superfície, ou a manifestação de que a verdade é uma só e muitos os nomes de Deus, só o tempo dirá. Em todo caso, o dilema que hoje existe para as religiões se resume no seguinte: ou elas mantém sua rigidez, correndo o risco de se extinguirem, ou se abrem indiscriminadamente, e se descaracterizam.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
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