A saga dos vices
Do alto de sua matreirice, seu Zezinho, dublê de cartorário e político em Matelândia, oeste do Paraná, costumava repetir a história que ouviu de um compadre ao definir a figura do vice. Segundo ele, vice era como estepe de caminhão: tinha pouca utilidade e só era lembrado nos piores momentos. No caso dos vice-presidentes da República, a história mostra que, por razões óbvias, a assunção ao cargo máximo dá-se na ausência ou impedimento do titular, mas sempre movido por um fato relevante e grave. Daí que toda mudança vem a reboque de uma crise política. O Brasil é um dos países em que mais vezes os vice-presidentes tiveram a oportunidade de deixar o papel de coadjuvante para assumir o comando da corte. Também não foram poucas as ocasiões em que tais mudanças deixaram resquícios ou sequelas entre o que deixava o poder e o que assumia as rédeas da Nação.
A tradição começou com o primeiro presidente, Marechal Deodoro, que ao renunciar distribuiu uma nota justificando o ato. Concluía afirmando que passava o governo ao funcionário encarregado de me substituir, mas em nenhum momento sequer mencionou o nome de Floriano Peixoto.
A partir de então os fatos se encarregaram de mostrar uma série de alternâncias na cadeira presidencial, sempre movidas por intrigas arquitetadas ou fomentadas nos corredores e gabinetes do poder. A única exceção foi o vice-presidente Pedro Aleixo uma espécie de quem foi sem nunca ter sido. Com a morte do marechal Costa e Silva, quase ao final da década de 60, os comandantes da redentora de 64 temeram pelo fim do regime militar, afinal, tratava-se de um democrata, civil, jurista renomado e fiel cumpridor da lei. No lugar deste perigoso subversivo assumiu um triunvirato que representava a coalizão das Forças Armadas verde-amarela. Os demais assumiram.
Só pra ficar em tempo recente, basta lembrar que dos três últimos presidentes dois não concluíram seus mandatos. Tancredo Neves adoeceu às vésperas da posse e acabou morrendo; em seu lugar governou José Sarney. Aliás, este sequer recebeu a faixa presidencial do último dos generais, João Baptista Figueiredo, que preferiu deixar o Palácio do Planalto pela garagem para não ter que cumprir o cerimonial de descer a rampa em companhia do novo mandatário, por se julgar traído pelo ex-companheiro. Collor de Mello renunciou para não ser cassado e Itamar Franco concluiu o resto do mandato. Eleito em 94 e reeleito em 98, o presidente Fernando Henrique Cardoso sempre teve em seu vice, o ex-senador Marco Maciel, um fiel aliado. Discreto, sensato e exímio articulador político, são atributos que fazem deste pernambucano uma espécie de eminência-parda da côrte.
A importância da função é tamanha que as definições para escolha dos companheiros de chapa pelos presidenciáveis é um verdadeiro jogo de xadrez. O vice é aquele que pode até não somar votos, mas qualquer mácula em sua biografia política pode levar uma candidatura à bancarrota. O tucano José Serra, que contava com a presença do governador Jarbas Vasconcelos como vice, agora está a exigir do novo ungido que não tenha de explicar nada. Garotinho, o socialista, arregimentou o ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Paulo da Costa Leite, e tido como figura ilibada. Lula, que lidera a preferência dos eleitores segundo os institutos de pesquisas, trava uma verdadeira queda de braços com os setores mais à esquerda do PT para convencê-los a aceitar uma aliança com o Partido Liberal em troca do posto.
Portanto, que ninguém se surpreenda caso o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, se recomponha com a fauna tucana e algum de seus aliados embarque, na última hora, na caravana do senador José Serra. No discurso de posse dos novos ministros, o presidente FHC fez alguns afagos em seu antecessor, demonstrando que a política continua sendo a arte do possível. Ou dos encontros e desencontros, como diria o poeta Vinícius de Moraes. Por aqui, seu Zezinho, os vices continuam em alta. A única diferença é que a tigrada, de tanto apanhar no lombo, aprendeu a escolher e agora está cada vez mais exigente, afinal, o estepe não é para ser usado?
René Ruschel é jornalista em Curitiba





