A saga de uma pioneira e dos japoneses
Tem-se escrito que a história de Londrina ainda caminha pelas próprias pernas de alguns de seus personagens antigos, porque, por onde se andar, pode-se encontrar pioneiros das primeiras horas. Quarta-feira Tomi Nakagawa, a última passageira viva do navio de imigrantes japoneses Kasato Maru, deixou este porto de morada terrena e empreendeu sua derradeira viagem. Os caprichos do destino desejaram que ela completasse 100 anos de idade o que aconteceu cinco dias atrás para então deixá-la partir. Tomi converteu-se numa lenda, pela história que a envolveu com o Brasil e porque foi escolhida para ser a derradeira vivente dentre os 781 passageiros daquele barco, que deixou o porto de Kobe, no Japão, no longínquo 28 de abril de 1908 rumo a uma vida nova no Brasil, um país tão estranho e desconhecido para os japoneses. Entre as crianças no colo dos casais de imigrantes estava Tomi. Havia no navio 181 mulheres, somando-se as esposas, moças e meninas. A chegada foi o porto de Santos, 51 dias depois, e o destino desses orientais, em princípio, era o trabalho nos cafezais de São Paulo. Dali para o Paraná foi um salto, para muitos, incluídos os pais de Tomi e ela. Londrina teve o privilégio de hospedar esta ilustre passageira, cujo mérito não é haver sido a última dessa epopéia mas haver vivenciado a saga dos pioneiros daqueles tempos. Os japoneses foram os que mais sofreram, pela dificuldade com o idioma e porque eram discriminados, e muitos deles trabalharam em regime de semi-escravidão, nas lavouras paulistas. O Norte do Paraná foi um portal de libertação de boa parte deles, porque aqui puderam adquirir terras e plantar. Relatos interessantes são contados sobre o Kasato Maru, como o publicado na época pelo jornal Correio Paulistano de que o setor do navio onde estavam esses imigrantes foi deixado mais limpo, depois que eles saíram, do que qualquer primeira classe de um transatlântico europeu. O mesmo aconteceria após eles fazerem a primeira refeição, na então Casa dos Imigrantes, porque deixaram o recinto mais limpo do que encontraram. A história da presença dos japoneses no Brasil é conhecida: não há pobres entre eles e seus descendentes, no geral uma classe média sustentável, devido à tradição e à educação peculiares dessa gente. Tomi Nakagawa transformou-se num símbolo de um povo que tantos bons legados deixou, especialmente nos Estados de São Paulo e Paraná, uma obra que teve continuidade nos seus descendentes. Na última festa decenal da imigração japonesa que aconteceu em Rolândia Tomi recebeu homenagem do presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, e do primeiro-ministro do Japão, Keizo Obuti, que vieram para o evento. Ela estava lúcida, como esteve lúcida e sorridente até a noite de véspera de sua morte.





