A roda da ignorância
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quarta-feira, 02 de abril de 2003
Walmor Macarini 
Bastou o salário mínimo subir a ''fabulosa'' soma de R$ 3,70 valor real depois dos últimos aumentos de preços para os arautos do terrorismo começarem a falar do temor da inflação pelo aumento do poder aquisitivo. Em outras palavras, o medo do consumismo, que, segundo as correntes do atraso que assolam o País, gera inflação. E assim, por conta de afastá-la, vão se fechando fábricas e empregos, com mais brasileiros chegando ao estado de fome-zero, porque morrem de inanição.
O Brasil perfila entre os povos que temem inflação pelo consumismo, e por assim pensar, basta, de fato, que algum salário suba para que as maquininhas remarcadoras de preços comecem a operar, mesmo sem razão. É algo psicológico, que se transformou em doença atávica. Como explicar que em países adiantados o salário e o consumo são altos e a inflação é zero? A teoria vesga de que dinheiro na mão do povo, por gerar consumo, gera inflação, só vigora em mentalidades obscuras.
Salário/produção/consumo, em ritmo compassado (a ordem desses fatores não importa) formam o tripé do desenvolvimento. No Brasil, por não haver consumo em nível ideal, a produção de bens é baixa, pois acompanha o ritmo. Sem produção não há emprego, sem emprego não há salário, sem salário não há consumo, sem consumo não há produção, e assim o círculo vicioso se fecha, com a roda girando em sentido inverso. Naturalmente que a reversão do processo não é rápida, mas há que estancar a roda e fazê-la girar em contrário.
Os países ricos pagam salário alto não porque são ricos, mas ficaram ricos porque melhoraram os salários, e assim viram a produção crescer em função da demanda. É a reação em cadeia, cujo resultado é a explosão desenvolvimentista. No Brasil, paga-se pouco porque não há produção sustentável que mantenha o negócio, e assim a cadeia produtiva anda só à meia-força; o consumismo não ocorre na proporção desejável, porque não há ganho suficiente; o ganho não melhora porque a fábrica produz pouco e assim não pode manter empregos e pagar bem; o trabalhador não consome porque o ganho é baixo ou nenhum. A isto se dá o nome de roda da ignorância.
O governo, de sua vez, carrega nos encargos sociais sobre a folha salarial e nos demais tributos, e a legislação trabalhista vigorante desestimula contratações, face à indústria da ação trabalhista. A esfera oficial contribuiria grandemente se esses encargos fossem substancialmente reduzidos e o dinheiro correspondente revertido para o assalariado, e se modificasse a lei trabalhista.
Em resumo: a economia só se salva com o consumismo, que move a fábrica, que move o emprego e a melhoria salarial, que move o consumo, que gera mais arrecadação tributária para o governo, que assim realiza mais obras, gerando mais empregos, por extensão mais consumo, e assim continuamente. Resultado final: prosperidade e paz social.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


