A revolução silenciosa dos avós
"(...) A disponibilidade deixou de ser presumida e passou a ser negociada(...)"
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de julho de 2026
"(...) A disponibilidade deixou de ser presumida e passou a ser negociada(...)"
Maria Caroline Waldrigues 
Durante muito tempo, a figura dos avós esteve associada à disponibilidade permanente. Eram eles que cuidavam dos netos, organizavam os encontros familiares, preservavam tradições e ofereciam apoio quase incondicional aos filhos. Na imaginação coletiva, a avosidade parecia caminhar ao lado da renúncia dos próprios projetos em favor da família. Hoje, esse cenário está mudando.
Os avós contemporâneos continuam amando seus netos, mas passaram a reivindicar algo que nem sempre esteve ao alcance das gerações anteriores: o direito de viver a própria vida. Enquanto filhos procuram ajuda para cuidar das crianças, muitos avós estão viajando, praticando esportes, estudando, participando de atividades culturais ou simplesmente desfrutando do tempo ao lado de seus companheiros. Não se trata de desamor, mas de uma nova forma de compreender o envelhecimento.
Eles continuam presentes e dispostos a colaborar, mas já não se percebem como responsáveis por assumir funções que pertencem aos pais. A disponibilidade deixou de ser presumida e passou a ser negociada. Em lugar da obrigação silenciosa, surgem o diálogo, os acordos e o respeito aos limites e projetos de cada geração.
Essa transformação acompanha mudanças profundas na experiência de envelhecer. O aumento da expectativa de vida, os avanços da medicina, melhores condições de saúde e maior participação social permitiram que a aposentadoria deixasse de representar recolhimento para se tornar uma etapa de novas possibilidades. Muitos integrantes da geração dos baby boomers chegam à maturidade com disposição para viajar, empreender, fazer voluntariado, estudar ou realizar sonhos adiados por décadas de trabalho e responsabilidades familiares. Tornar-se avô ou avó deixa de ser uma identidade exclusiva para ser apenas uma das dimensões da vida.
Entre as mulheres, essa mudança ganha ainda mais significado. Elas vivem mais, representam a maioria da população idosa e pertencem, em grande parte, à geração que conquistou autonomia profissional e financeira. Não surpreende que muitas não aceitem mais assumir integralmente os cuidados dos netos como extensão natural da maternidade.
Há, nesse movimento, uma revolução silenciosa. Durante séculos, o cuidado foi tratado como um dever inesgotável das mulheres. Quando uma avó afirma: "Posso ajudar, mas não posso substituir", ela não rejeita a família. Apenas reafirma seu direito à individualidade e ao reconhecimento de seus próprios desejos.
Isso não significa famílias menos solidárias. Ao contrário. As relações tornam-se mais horizontais, baseadas em negociação, respeito e corresponsabilidade. Os avós seguem fundamentais na transmissão de memórias, valores e afeto, mas exercem esse papel sem abrir mão da própria autonomia.
Talvez essa seja a grande novidade do nosso tempo. Os avós não desapareceram, nem deixaram de amar seus netos. Apenas passaram a ocupar um lugar diferente. Depois de décadas atendendo expectativas familiares, profissionais e sociais, muitos chegam à maturidade decididos a cuidar também de si mesmos.
A revolução silenciosa da avosidade contemporânea afirma que envelhecer não significa deixar de existir como indivíduo. É possível amar profundamente os netos e, ao mesmo tempo, preservar espaço para os próprios sonhos, afetos e projetos. Os novos avós continuam presentes — apenas escrevem, agora, suas próprias histórias com mais liberdade.
Maria Caroline Waldrigues é docente universitária na Escola Superior de Saúde Única (ESSU) do Centro Universitário Internacional – Uninter e Mestre em Educação pela UFPR, especialista em Envelhecimento Saudável pela PUC/RS e em Gestão Pública em Saúde pela UFPR.


