A história sempre se reescreve quando surgem evidências ou provas de que os fatos históricos, na versão original, foram falseados por desinformação ou má-fé dos historiadores. Hoje se sabe que o imperador Nero, com todas as suas loucuras, não incendiou Roma, como contaram Suetônio e Plínio, para agradar ao patriciado romano de seus tempos. E que Churchill, embora clarividente, na coordenação do combate à Alemanha de Hitler, pensou em declarar guerra ao Brasil, de Vargas.
Existe, porém, paralelamente ao reparo de distorções históricas, o exercício de especulação gratuita, que cientistas políticos e ficcionistas da ciência fazem, ao imaginarem como seria a história, se alguns de seus fatos fossem diferentes. Por exemplo: que seria da Europa se o filho de Napoleão com Maria Luíza, o rei de Roma, caso o avô que o criou, Francisco I, da Áustria, o deixasse aceitar, aos 20 anos de idade, os tronos que vários países europeus lhe ofereceram?
No Brasil, o que sucederia se João Goulart, um de nossos ‘‘réprobos’’ históricos, deposto sob suspeita de querer implantar no País uma república sindicalista, tivesse abraçado um projeto econômico diferente? Digamos: o programa do presidente Fernando Henrique, alinhando-se aos interesses da economia dos Estados Unidos, e entregando, à época, nossas riquezas e estatais ao capital externo? Derrubá-lo-iam por minar a soberania nacional? E se Goulart, além disso, recorresse ao arlequinismo político e obtivesse do Congresso, pela compra de votos, o direito de reeleger-se? Ou caso seu governo, reeleito, fosse maculado pela corrupção e levasse o Brasil ao mesmo nível de impunidade e violência atuais? Nessas hipóteses, os aliados de Goulart o apoiariam, como fazem hoje os de FHC?
Esse tipo de exercício, em geral, não leva a nada, além da reflexão e do sentimento de tristeza e amargura dos que refletem sobre a volubilidade e fraqueza do caráter humano em assuntos relevantes como soberania, patrimônio público, justiça social, moralidade, interesses do País e outros valores.
O Brasil mudou muito, de 1962 aos dias de hoje, mas, em termos objetivos, embora menos materiais do que éticos, aparentemente ficou pior, apesar das conquistas desse período. Talvez por isso a própria dramaturgia dos meios eletrônicos de comunicação prefira a volta regular ao passado à crítica da realidade presente. E esse tempo de fantasia que as televisões recriam – acreditem neste repórter – não era, porém, tão róseo quanto o pintam.
Mas, vistos erros e acertos de Goulart e FHC, os que viveram aqueles anos de turbulência vêem patriotismo nas posições do primeiro ação impatriótica nas decisões do segundo. O projeto de País livre, de um; e de submissão, do outro. E neste – a imagem silvério-dos-reis de nossa história – um povo sem rumo, aflito, à espera do milagre de nova independência para voltar a ter orgulho e alegria, como nos velhos tempos. Agora, porém, sem as conveniências imorais do patriciado econômico.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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