A revanche de Seattle
Pelo lado da cultura pop, Jimi Hendrix e Kurt Cobain fizeram sua parte por Seattle. E não foram só eles. Surgiram na cidade norte-americana, também em momentos diferentes, a Boeing e a Microsoft, com produtos que literalmente se espalham por todo o planeta. Mas nada disso eliminou a caipirice do lugar. O mundo sabe muito mais de Seattle do que Seattle do mundo. E ninguém venha dizer que é impossível fugir do provincianismo nos Estados Unidos. Chicago, Nova York e San Francisco estão aí para dizer que é possível.
Há um ano, o mundo baixou em Seattle. Foi um desastre, ao menos na visão dos habitantes locais. Manifestantes contrários à globalização, em grande parte forasteiros, fizeram barulho e atrapalharam o trânsito durante o encontro da Organização Mundial do Comércio (OMC), entre 30 de novembro e 3 de dezembro. Houve vitrines quebradas e pancadaria da polícia. Mas nenhuma morte ou mutilação, ao contrário do que aconteceu, dia 2 de dezembro, a grevistas da Novacap, em Brasília.
Na madrugada do dia 4, o encontro da OMC se encerrou sem os resultados que esperavam seus participantes. Para o fim de semana, estava programada uma exposição de animais domésticos no Centro de Convenções de Seattle, que não poderia ser adiada. Na cidade, a maioria das pessoas quer esquecer dezembro de 1999.
Poucos vêem as manifestações como o que realmente foram: um marco histórico. Dali para frente, houve barulho em todos os grandes encontros que envolveram representantes de governos, principalmente os dos países ricos. Em Davos, Praga e Washington.
Dia 25 de janeiro haverá em Porto Alegre um encontro que é o inverso de todos esses, o Fórum Social Mundial (uma paródia do Fórum Econômico Mundial, sediado anualmente em Davos, na Suíça). O pessoal que vem ocupando as ruas vai ganhar credencial, pastinha e sentar nas poltronas, como palestrante ou convidado. Já confirmou presença um dos astros das ruas de Seattle, José Bové, o agricultor que entrou com um trator num McDonalds do interior da França. Há uma lista grande de notáveis confirmados (o site do evento é www.forumsocialmundial.org.br).
Não vai faltar assunto para discutir. Principalmente porque essa história de protestar contra a globalização é algo confuso não há consenso sequer sobre o que vem a ser globalização. Para começo de conversa, o francês Bové e outros agricultores de primeiro mundo adoram subsídios e protecionismo, o que prejudica os agricultores dos países pobres.
As contradições em nada prejudicam o encontro programado para a capital do Rio Grande do Sul. Ao contrário. Haverá provavelmente ali discussões ricas, de interesse para o mundo inteiro. Dez anos atrás, muita gente considerava mortas as ideologias e até mesmo a história. Ainda bem que, como sempre, os ciclos de pasmaceira e conformismo são sempre superados por outros de dialética e animação.
Só é de lamentar que os banqueiros e tecnocratas não venham a ocupar as ruas de Porto Alegre.
- PAULO SILVA PINTO é jornalista em Brasília





