A 'República de Curitiba' e o utilitarismo de Brasília
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sábado, 09 de abril de 2016
Marcos A. Striquer Soares 
O surgimento do neoliberalismo na década de 80 deu força a um debate que contrapõe liberalismo e republicanismo. O liberalismo é a marca indelével da modernidade, é caracterizado pela emancipação do homem frente a estruturas que impunham sua dependência e sua dominação, vigentes na Idade Média. É a descoberta da individualidade do homem, o qual passa a buscar a sua autorrealização; e cada indivíduo pôde buscar a sua autorrealização, cada um pôde buscar o seu sucesso pessoal sem depender de mais ninguém. No Brasil, o termo liberalismo é confundido, muitas vezes, em conversas do cotidiano, com o termo capitalismo. Mas possuem significados distintos, embora o capitalismo também leve o indivíduo à busca de ganhos pessoais.
Em oposição ao ideal liberal, ganhou força o ideal republicano, como crítica às políticas liberais. Se no liberalismo o sucesso pessoal é a mola propulsora das ações humanas, o republicanismo tem as ações voltadas para o bem de todos os membros da sociedade. Respeito à lei e cumprimento dos deveres, de cada um em favor do todo, são marcas mais expressivas desse ideal. A lei, aqui, tem o papel de assegurar a liberdade, evitando abusos e garantindo a igualdade, uma vez que todos devem observar as mesmas regras. A lei não é um mal, a lei é que me protege e me liberta, sem depender de uma autoridade, um amigo ou um jeitinho e sem corporativismo. O republicanismo também prega a união de todos em favor do interesse público, assim como pregavam Martin Luther King e Nelson Mandela, sem divisão da sociedade ou de interesses.
A expressão "República de Curitiba" parece expressar bem o que vem ocorrendo na capital do Paraná, marcando um país que cobra respeito à lei e cobra de suas autoridades que cumpram com suas obrigações para com o interesse público. Já as autoridades de Brasília, levam para o governo práticas que podem ser confundidas com práticas liberais na condução do dinheiro público. Usam bens e interesses do povo para obter riqueza pessoal.
O absurdo é tão grande em Brasília, que chamar aquilo de liberalismo é uma ofensa enorme aos liberais, pois os liberais têm como pressuposto a observância da lei. A lei para eles é um mal, porque limita a liberdade, mas é necessário, porque viabiliza a vida em sociedade. Os liberais contemporâneos, como Ronald Dworkin e Jonh Rawls, não aceitam o utilitarismo, teoria que influenciou as condutas a partir do século 18, com Jeremy Bentham, mas que já é muito criticada; pregava o maximizar a felicidade, assegurando a hegemonia do prazer sobre a dor.
As autoridades de Brasília se unem para maximizar a felicidade deles, o universo de felicidade é o deles. Os governantes de Brasília (do Executivo e do Legislativo) se apegam a um utilitarismo tosco, buscando o sucesso pessoal, usam pessoas (o povo) e o dinheiro dessas pessoas como meios para atingir a felicidade pessoal. Um utilitarismo que tem o povo como objeto de manipulação, para o sucesso das pessoas que conquistaram o poder.
A esperança é acabar com essa dominação utilitarista e implantar práticas republicanas na condução de bens e interesses públicos. A prática liberal fez tão bem ao ser humano que não vai deixar de existir, mas deve ficar restrita ao mercado. O governo deve ser republicano.
Como diria Martin Luther King, eu tenho um sonho. A República de Curitiba é a cara do governo que eu tenho esperança de ver implantado no meu país.


