A repercussão do reajuste e a desfaçatez
Depois que a reação explodiu violenta no seio da opinião pública e nos veículos de comunicação, o Supremo Tribunal Federal encontrou vento favorável para negar o aumento salarial de 90,7% dos senadores e deputados federais. Por conseqüência, também fica anulada a elevação proporcinal do ganho dos deputados estaduais. Logo que as mesas de Câmara e Senado aprovaram o absurdo, nenhum parlamentar se manifestou a não ser três do Psol mas com a corrente negativa gerada começaram a pipocar os oportunistas das duas Casas contra o vergonhoso reajuste.
Isto deixa no ar a suspeita de que, em momento mais oportuno, eles arranjem alguma forma de compensação pelo revés de agora, porque são muitos os canais das verbas de representação. Não se iluda o ministro do STF Marco Aurélio Mello ao declarar que está de parabéns a democracia. Até porque uma democracia de parabéns seria assistir-se também à baixa, pela metade, dos ganhos dos magistrados das elevadas cortes, e assim a tentadora sedução por tão altos ganhos seria menos intensa no âmbito parlamentar. Foi um senador quem disse que não somos menores que eles, referindo-se aos ministros dos tribunais. Ao menos quanto a esse aspecto (e sem avaliar ou não o quantum dos salários) será preciso lembrar que um magistrado estudou para chegar à posição em que se encontra, enquanto a um parlamentar tem bastado possuir um doce canto de sereia e um pouco de populismo, porque não se exige dele formação política.
Ressalta desse processo algo surpreendente: a alegação do STF de que o aumento dos deputados foi auto-atribuído por um decreto legislativo sem validade. Como isto ocorre na Casa dos próprios legisladores? Como pode acontecer de eles próprios ignorarem os regimentos? E como foi necessária a reação do povo e da imprensa para o Supremo Tribunal descobrir essa inconstitucionalidade? Estarrrece constatar-se mais uma vez o saco de gatos que é a questão legal no Brasil. O julgamento do caso foi confuso no próprio âmbito da suprema corte. Numa terra de tantas leis arcaicas algumas, conflitantes entre si outras, de sentido dúbio outras mais foi considerado caduco pelo Supremo o decreto que estribou o aumento em dobro dos parlamentares.
E os deputados estaduais do Paraná, que no dizer de um deles quanta ironia! apenas seguiram uma tradição e que eles próprios não aumentaram nada, é oportuno lembrar que eles não são obrigados a reajustar-se automaticamente pelo aumento dos colegas federais. Basta ignorar isso. Mas eles nunca ignoraram. Por isso, tudo o que digam será hipocrisia.





