Jânio buscava ajuda do PTB para obter delegação de poderes do Congresso, visto não haver dificuldades com as bancadas da UDN, PDC e partidos menores que o apoiavam. Precisava, também cooptar o governador da então Guanabara, Carlos Lacerda, político impetuoso, de oratória flamejante, que conduzira o País à grave crise política de agosto de 1954, resultando no suicídio de Getúlio Vargas.
Ele credenciou seu ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, para convencer Lacerda, mas este se mostrou reticente. Lacerda queria falar com Jânio em Brasília e levou sua mala para o Palácio da Alvorada, residência presidencial. O presidente esnobou o governador carioca e em um de seus rompantes recusou-lhe a hospedagem. Enfurecido, Lacerda concedeu entrevista à TV Tupi, dos Diários Associados, e acusou no seu estilo de panfletário que Jânio estava tramando um golpe para fechar o Congresso e que seu ministro da Justiça o havia procurado para propor o estado de exceção, que ele não aceitara e agora denunciava perante a Nação.
A entrevista de Lacerda causou estupor no Congresso, que devido à gravidade das informações deliberou, no avançado da noite de 24 de agosto de 1961, criar uma comissão especial para apurar a veracidade do relato, anunciando-se que seriam convocados para depor o ministro da Justiça e talvez o próprio presidente da República.
Jânio se sentiu totalmente acuado. Conhecia a capacidade de articulação das raposas do PSD, que não lhe perdoavam os ataques ao governo Juscelino e os inquéritos que mandara abrir para verificar irregularidades no mandato anterior. O PTB, embora estivesse sendo alvo de aliciamento, não lhe merecia confiança, mesmo porque falecera seu amigo e conselheiro, senador Abilon de Souza Naves, vice-presidente do partido.
Os ministros militares estavam arredios pois, anticomunistas ferrenhos, desconfiavam dos acenos de Jânio para a esquerda e do seu fascínio pelo regime de Fidel Castro em Cuba, aonde enviara delegação governamental para estreitar laços comerciais. Ademais, os chefes militares tinham engolido com suspeição os compromissos pacifistas assumidos por Jânio em encontro com o presidente Arturo Frondisi, em Uruguaiana, quando assinaram acordo bilateral Brasil-Argentina e decidiram reduzir os efetivos militares e os gastos com apetrechos bélicos.
Jânio percebeu que poderia ser afastado do cargo pelo Congresso sob acusação de golpista. A indiferença e a apatia dos ministros militares não lhe serviria de amparo, a imprensa não fora distinguida com qualquer aceno, os sindicatos de trabalhadores mostravam-se insatisfeitos com medidas impopulares do governo e, sem dúvida, ele abrira muitas frentes de luta, multiplicando inimigos, e não contava com força política alguma entusiástica a seu favor.
Encurralado, Jânio optou pelo gesto dramático e teatral da renúncia, que não era para valer e, sim, para gerar grande impacto e forte emoção, que o devolveria ao poder com plenos poderes e delegação legislativa para editar decretos-lei nos assuntos de caráter econômico. Ele se inspirava nas ''renúncias'' bem-sucedidas de Fidel, de Nasser e dele Jânio à candidatura presidencial, em que os renunciantes voltaram fortalecidos pelo clamor popular, porém ele não soube avaliar, adequadamente, as circunstâncias do Brasil naquele momento e se deixou levar por impulso prepotente e irresponsável.
A cena parecia bem montada. Ele compareceu, com toda pompa, ao desfile militar do Dia do Soldado (25 de agosto de 1961). De retorno ao Palácio do Planalto, disse aos ministros militares que estava renunciando à Presidência da República e determinou que eles mantivessem a ordem pública. Assinou a curta carta de renúncia de poucas linhas, sem firma reconhecida, que o ministro Pedroso Horta ficou de levar à tarde ao presidente do Congresso, Senador Auro Moura Andrade.
Tratava-se de uma sexta-feira, quando o plenário fica vazio. Na hora do almoço, o ministro da Guerra, Odylo Dennys, vizinho de apartamento no mesmo andar, do deputado José Maria Alkimin, contou-lhe que Jânio iria renunciar. As raposas do PSD (Auro, Mazzilli, Alkimin e outros) combinaram tudo. Mal Pedroso Horta entregou ao presidente do Congresso a carta de Jânio, o senador Auro dirigiu-se imediatamente à Mesa da Câmara dos Deputados e instalou sessão extraordinária do Congresso.
Auro leu a curta carta de Jânio dizendo: ''Por ser ato unilateral de vontade não comporta discussão.'' Declarou vaga a Presidência da República e comunicou que Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, segundo na ordem de sucessão constitucional, assumiria a Presidência às 17 horas no Palácio do Planalto, em virtude do vice-presidente da República, João Goulart, encontrar-se em viagem ao exterior. O líder do governo, deputado Pedro Aleixo, estupefato porque não sabia de nada, pediu a palavra, para questão de ordem. O presidente da Mesa respondeu: ''A sessão está encerrada.''
Jânio tinha seguido em avião da FAB para a base aérea de Cumbica, em São Paulo, onde permaneceu por 24 horas, aguardando em vão o chamado para reassumir o poder, que nunca viria. Na segunda-feira, 28 de agosto, alguns de seus adeptos ainda tentaram uma reação.
Na Assembléia Legislativa do Paraná, o deputado Aníbal Khury leu manifesto do Movimento Popular Pró-Jânio Quadros: ''Os motivos que determinaram a renúncia de Jânio Quadros são os mesmos que impedem a posse do Sr. João Goulart, daí porque não consideramos legítima sua renúncia, e o processo democrático deve ser resguardado com a recondução de Jânio Quadros à primeira magistratura do País. Restitua-se a esse valoroso brasileiro, patriota ilustre, a Presidência da República.''
Foram vozes isoladas que se perderam no vácuo e o resto a Nação conhece: veto à posse de João Goulart pelos ministros militares, Campanha da Legalidade e adoção do parlamentarismo, com a posse de Jango. Deposição do presidente e 20 anos de regime militar com extinção dos antigos partidos. Reconquista da democracia, Assembléia Nacional Constituinte e Constituição-Cidadã de 1988.


- LÉO DE ALMEIDA NEVES é ex-secretário-geral no Paraná e nacional do antigo PTB, ex-deputado estadual trabalhista, e ex-deputado federal e atual suplente de Senador

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