A escolha de Jâ nio Quadros à Presidência da República (em 3 de outubro de 1960) fora prece dida pela sua eleição, dois anos antes, pelo PTB, para deputado federal (mais votado do Paraná), em 3 de outubro de 1958, dando-lhe condições de preencher o vazio político entre o fim de seu mandato de governador de São Paulo e a data do pleito presidencial.

Eu exercia a Secretaria-Geral do PTB do Paraná e o presidente Abilon de Souza Naves, amigo pessoal de Jânio, incumbiu-me das providências legais atinentes à candidatura. Após a convenção regional, levei-lhe a documentação para registro, que ele assinou condicionando à decisão final do TSE, que lhe permitisse disputar sem se afastar do Executivo paulista.

A pedido de Souza Naves, um pequeno partido impugnou a candidatura de Jânio Quadros a deputado federal. O TRE do Paraná rechaçou a impugnação e promoveu o registro. Foi interposto novo recurso, agora para o TSE, que negou provimento, mantendo o registro. Leonel Brizola, então governador gaúcho, aproveitou a brecha jurídica e se elegeu deputado federal com a maior votação do Rio de Janeiro, conservando o cargo.

Jânio atribuiu ao politizado tenente Alberto, da Polícia Militar de São Paulo, a coordenação de sua campanha eleitoral. Dei-lhe suporte logístico, acesso à lista de prefeitos, vereadores, diretórios municipais do PTB e outras informações úteis. Todo o material de propaganda foi confeccionado em São Paulo e Jânio Quadros se limitou a participar apenas de dois comícios, em Londrina e Curitiba, onde o general Iberê de Mattos disputava a prefeitura, e foi eleito na sucessão de Ney Braga. Souza Naves ganhou para o Senado e Jânio se tornou campeão de votos para deputado federal.

Souza Naves faleceu de enfarte fulminante em 12 de dezembro de 1959, e eu o substituí como um dos vice-presidentes do PTB nacional. Em reunião da Comissão Executiva no Edifício São Borja, no Rio de Janeiro, em 20 de agosto de 1961, debateu-se a crise política nacional em ebulição e desloquei-me a Brasília.

Jânio assumira a Presidência em ambiente de inflação alta, devido ao governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e, principalmente, por causa dos gastos excessivos com a construção de Brasília. Ele restabeleceu a verdade cambial e acabou com subsídios inclusive para a importação de papel de imprensa. Em sua primeira aparição na televisão para explicar suas medidas, exibiu grosso exemplar de domingo do jornal ''O Estado de S.Paulo'' como exemplo do malbaratamento de divisas. Convenceu a massa, mas arrumou inimigo poderoso no tradicional jornal paulista.

Para contrabalançar suas rigorosas ações de austeridade no fronte interno, Jânio Quadros se lançou em uma política internacional do agrado das esquerdas. Visitou Cuba antes da posse e condecorou com a Ordem do Cruzeiro do Sul a mais alta comenda brasileira, o ministro da Indústria e Comércio cubano, o lendário líder revolucionário Che Guevara. Sinalizou rápido entendimento comercial e diplomático com os países comunistas, incluindo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a República Popular da China. Os países africanos passaram a ser prioridade no relacionamento diplomático.

Com sua política externa independente, aliada a Nasser do Egito, marechal Tito da Iugoslávia e Nerhu da Índia, ele buscava ficar equidistante de Moscou e de Washington, embora interessado em laços de comércio com os países comunistas. Jânio enfrentava grave problema de frágil apoio na Câmara dos Deputados e no Senado, sendo majoritário o oposicionista Partido Social Democrático (PSD), que ocupava as presidências dessas duas casas do Congresso, respectivamente, com Ranieri Mazzilli e Auro Moura Andrade.

Ainda que todas as suas mensagens tivessem sido aprovadas pelo Congresso, Jânio pretendia poderes especiais, isto é, uma delegação para legislar em matérias econômicas, como hoje se faz com as Medidas Provisórias. Com esse objetivo, buscou achegar-se ao PTB, que detinha a terceira bancada, e com o qual trocara escaramuças no início do mandato, mandando realizar inquéritos nos institutos de previdência social.

Depois de ter trocado farpas com o vice-presidente João Goulart, candidato a vice na chapa presidencial do marechal Teixeira Lott, derrotado, Jango venceu, visto que nessa época o vice era sufragado pelo voto direto. Jânio se aproximou dele, tanto assim que o designou para presidir missão especial do governo brasileiro, integrada também por parlamentares de diversos partidos, que iria encontrar-se com Mao Tsé-Tung e outros líderes chineses, para aplainar o caminho do restabelecimento de relações comerciais e diplomáticas.

Afora a missão de Goulart na China, Jânio fez outro aceno espetacular ao PTB, convidando sua máxima liderança intelectual, o professor universitário, detentor de invulgar inteligência e cultura, deputado federal Francisco Clementino de San Thiago Dantas, para chefiar a delegação brasileira na ONU, onde pronunciaria o discurso inaugural da sessão seguinte, expondo a política exterior do governo brasileiro, que Jânio considerava o ponto alto de sua investidura.

Era tão majestática a tarefa, que San Thiago Dantas renunciou ao mandato de deputado federal pelo PTB de Minas Gerais, proferindo um dos melhores discursos da legislatura para justificar seu gesto e a ''aceitação do irrecusável convite presidencial para ir à ONU e influir nos destinos da humanidade, retratando a política exterior independente do governo Jânio Quadros''.


- LÉO DE ALMEIDA NEVES é ex-secretário-geral no Paraná e nacional do antigo PTB, ex-deputado estadual trabalhista, e ex-deputado federal e atual suplente de Senador

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