Quando alguém descobriu e declarou, em todas as línguas, que cada povo tem o governo que merece, estava revelando uma verdade incontestável. Porque os governantes são produtos do meio, significando que é por aí que as mudanças devem começar. Reportagem de ontem deste Jornal robustece a corrente de que a grande maioria dos cidadãos brasileiros não confia nos políticos. Mas se o povo não é suficientemente politizado para enfrenta-los e cobra-los, é desse ambiente que emergirão os homens públicos, portanto iguais. É o povo dispondo do que produz, e assim tem o que merece ter. Governante e povo são feitos da mesma argamassa social, porém é certo que a sociedade – pelas armas de que dispõe mas não utiliza – é que poderá melhorar um governo, não o inverso. Se a população se qualificar melhor politicamente, e em todos os sentidos, desse universo despontarão homens públicos de igual estatura. Se há componentes de corrupção, de negligência e de irresponsabilidade na maior parte das pessoas, esses atributos estão igualmente contidos naqueles que, saídos desse meio, irão compor os parlamentos, os governos, as repartições públicas. Há um longo caminho a percorrer e ele passa pelo aperfeiçoamento individual, no sentido dos deveres e dos direitos. Dessa forma irá se plasmando um conjunto social homogêneo, de onde florescerão bons governantes, bons empresários, bons educadores, bons profissionais. Isto vai ao encontro do que diz, na reportagem da Folha, a psicóloga Maria Helena Haddad Guterres: não é só o político que transgride as regras mas também o cidadão, em seus comportamentos. O mesmo afirma, no texto jornalístico, a psicóloga Fátima Cristina Conte: a relação de confiança é construída por alguns pressupostos, como o de as pessoas serem transparentes e verdadeiras, saibam respeitar os sentimentos do outro, sem pré-julgmaentos, e se portem com coerência entre palavras e atos. Será preciso então, para recuperar a credibilidade, que todos comecem a ser mais honestos e mais coerentes e mantenham-se nessa atitude. Ou a produção de políticos que apenas se preparam para sair bem nas campanhas eleitorais irá continuar, sem preocupação com a responsabilidade do cargo que cada qual pretende ocupar. A população, equivocadamente, tem esperado que a solução dos problemas sociais emane do Governo, mas – se o poder público pode cooperar grandemente – não é nele que está a fórmula e sim em cada brasileiro. É o Brasil-cidadão que dá sustentabilidade a tudo, porque é o que cria, produz, aperfeiçôa, comercializa, disponibiliza serviços e, afinal, dinamiza a economia e gera recursos para que a máquina governamental realize a parte das obras que lhe cabe. É sempre a partir do povo que as coisas acontecem, no sentido do desenvolvimento. Os governos, ao menos, deveriam dar o suporte legal que lhes compete. Ruim é que os cidadãos, tão competentes para o trabalho e para as mais difíceis tarefas, ainda guarda resquícios da artimanha de levar vantagem, e no geral todos pactuam de pequenos delitos. O substrato – desse meio – que irá se aninhar nos redutos do poder resultará em cópia individualizada do meio social de onde emerge. Os políticos serão melhores se a sociedade se melhorar primeiro.

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