A reforma do senso comum
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de maio de 1997
Olavo de Carvalho 
Para a psicologia escolástica, o sensus communis era a capacidade de aprender num objeto para além dos traços captados pelos sentidos próprios (visão, olfato etc.) a unidade da sua forma global, sem a qual se reduziria a um amontoado de sinais inconexos. Sem essa aptidão, não poderíamos sequer fugir de um cachorro. Ela é a base da nossa inteligência natural, a raiz do nosso sentido de realidade.
Por extensão, o termo inglês common sense designa aquelas percepções espontâneas e pré-verbais comuns a todos os homens. O common sense ensina que as galinhas botam ovos, que as vacas dão leite, que pau é pau e pedra é pedra - evidências mudas confirmadas pelo duplo e concordante testemunho dos vários sentidos e das várias pessoas.
Uma estranha mutação foi introduzida nesse conceito pelo ideólogo italiano Antonio Gramsci. Este sujeito esquisitíssimo, obcecado pela ideologia, usava contos de fadas sutilmente modificados para incutir na filha pequena o ódio aos capitalistas. Achava-se por isso um grande reformador da pedagogia. Mas a extravagância explica-se: foi homem de ação reduzido à inação, revolucionário condenado a sonhar revoluções na solidão do cárcere. Expressão do rancor intelectualizado, sua teoria do sensus communis tem a marca inconfundível da paranóia: para ele, o senso comum, em vez de ser uma inteligência biológica aperfeiçoada pela evolução natural, é um produto ideológico artificioso, um amálgama incoerente de mentiras úteis à classe dominante. Quando um homem crê que o céu é azul e que das vacas não nascem potros, está se deixando levar por uma falsa impressão de estabilidade criada pela burguesia para lhe dar a ilusão de que o presente status quo é eterno. Se o proletariado nega apoio à revolução socialista, é por uma resistência inconsciente: ele está preso ao common sense burguês. Antes de ganhar sua adesão consciente, é preciso portanto conquistar o seu subconsciente, mudar suas percepções, seus reflexos suas percepções instintivas, seu vocabulário: reformar seu senso comum à imagem da doutrina socialista.
O instrumento para isso é a propaganda. A revolução cultural, como a denomina Gramsci, deve ser obra de uma elite capaz de inventar os novos esquemas de percepção, que, imitados às cegas pela massa dos pequenos intelectuais - jornalistas, publicitários, gente do show das bases morais e psicológicas da resistência ao socialismo.
Para realizar essa mutação, a elite socialista deve ir ocupando espaços nos meios de comunicação, no movimento editorial, no sistema de ensino e na burocracia estatal; na hora de tomar o poder, ela praticamente já estará no poder. O povo, previamente trabalhado pela revolução cultural, não oferecerá resistência, e sua omissão será interpretada como aplauso. A infiltração denomina-se a longa marcha da esquerda para dentro do aparelho de Estado. Junto com a revolução cultural, ela produz a revolução passiva - a transição sem dor para o socialismo, operada sob transe hipnótico.
No Brasil, a revolução cultural está em marcha há pelo menos 30 anos, lenta, gradual e segura. Ela tem a seu serviço milhares de zumbis semiletrados que propagam modas, valores e padrões de conduta, sem perguntar sua origem ou a intenção que os gerou. Dissolvida a unidade do senso comum pelo bombardeio do imaginário e pelas distorções propositais da linguagem, as valorações mais absurdas começam a parecer naturais e sãs aos olhos de uma população entorpecida: a revolução passiva já começou.
Só uns poucos brasileiros ainda estranham e questionam; a maioria está pronta a desmentir os próprios olhos para dizer amém a quanta besteira venha sacramentada. Logo após ter visto na tevê 18 soldados acuados defendeno-se a tiros de milhares de sem-terra armados de foices, todos aceitaram a versão segundo a qual foram os policiais que perseguiram 20 vítimas desarmadas, mata a dentro - versão propagada pelo consenso dos intelectuais ativistas, pessoas mais dignas de confiança do que os falíveis olhos humanos contaminados de commom sense burguês. Passado um tempo, tornou-se possível até mesmo dar um sentido político de luta de classes à brincadeira macabra dos cinco tarados que queimaram um índio em Brasília. Tempos atrás, quem forçasse os fatos a esse ponto seria ridicularizado. Hoje a tolice doentia passa por verdade absoluta, que até o presidente da República endossa implicitamente. O Brasil delira, sob o efeito da hipnose gramsciana. E se a dissolução mesma do senso comum produz mais confusão e violência, tanto melhor - quanto mais hipnotizado estiver um homem, menos poderá avistar na hipnose mesma a origem dos desatinos que ela o induz a cometer, e mais se inclinará a descarregar suas culpas inconsciente sobre o primeiro bode expiatório que o hipnotizador lhe sugira. A autopersuasão delirante se fecha sobre si mesma, num círculo perfeito.


