O noticiário dos últimos dias envolvendo uma pretensa elevação nos preços do frango acabou servindo para ocultar dos consumidores uma realidade: a de que o produto realmente poderá vir a subir de preço, mas se mantém, nesse momento, em níveis mais baixos que os de dezembro passado.
Em dezembro, o preço médio do quilo de frango no atacado foi de R$ 1,15. Em janeiro, o preço médio caiu para R$ 1,10 e se mantém assim até agora. Evidentemente, ao comercializar o frango no varejo, cada estabelecimento segue sua própria política de preços. Alguns chegam a praticar preços negativos com o objetivo de atrair clientes para dentro das lojas, enquanto outros aplicam determinada margem de lucro sobre os preços no atacado. É assim que funciona o mercado.
Porém, ao contrário do que pessoas menos informadas declaram aos veículos de comunicação, a atividade avícola no Brasil depende, em parte, das variações do câmbio, pois vários de seus insumos são importados ou têm seus preços vinculados à cotação do dólar.
Sem dúvida, o frango produzido no Brasil consome exclusivamente rações produzidas no Brasil, mas essas rações são balanceadas com vitaminas, minerais e aminoácidos só produzidos no exterior; por outro lado, insumos como soja e trigo têm seus preços balizados em um comportamento de mercado internacional determinado pelos negócios da Bolsa de Chicago, de cujos commodities a avicultura utiliza os farelos.
Recorrendo a uma frase de efeito, diligente funcionário do Ministério da Justiça declarou nos últimos dias não saber que o frango brasileiro fala inglês. A frase que se pretendia jocosa esconde total desconhecimento do setor. Na realidade, a produção brasileira de frango e ovos depende não apenas de vitaminas, minerais, produtos veterinários e aminoácidos importados, mas também de material genético de procedência norte-americana, francesa, holandesa e alemã. Todo esse material é pago em dólar e ainda não é produzido no Brasil.
Apesar da exploração que se faz em torno do assunto, até este momento a desvalorização do real frente ao dólar ainda não se refletiu nos produtos avícolas. As drásticas oscilações diárias do câmbio paralisaram alguns negócios. As esmagadoras de soja praticamente suspenderam os fornecimentos. Os fabricantes de rações reduziram sua produção em pelo menos 20% e se queixam de que em um mês os preços do farelo de soja saltaram quase 60%, indo de R$ 1,90 para R$ 3,00 a tonelada. Diante disso, os produtores avícolas, por enquanto, tentam manter sua atividade quase que apenas com os insumos que tinham em estoque.
Em face desse quadro, é imperiosos que se admita: com a elevação do câmbio, alguns itens que compõem o custo de produção e de transporte do produto avícola tendem a ter reajustes de preço. E é obvio que essa situação deverá se definir rapidamente.
Se as prováveis futuras elevações de preços serão maiores ou menores, isso vai depender em boa parte do mercado e de eventuais medidas corretivas que possam ser adotadas pelo governo. Em última instância, quem dita o preço do frango é o consumidor - seja pela variedade de opções que o mercado oferece a ele, seja pelas restrições decorrentes de reduzido poder aquisitivo da população. São fatores que poderão determinar um comportamento moderado nos preços.
É importante deixar claro que com o reajuste no câmbio a avicultura brasileira não estará ganhando, mas deixando de perder. Basta dizer que no início do Plano Real, em julho de 94, o frango tinha seu preço cotado em R$ 1,23. Passados quatro anos e meio, esse preço está em R$ 1,10. Ou seja, houve uma involução de valores na ordem de 10%.
Outra referência que podemos citar é que em janeiro de 95 o preço do frango estava em R$ 1,00 o quilo, para um dólar cotado em R$ 0,846; e em janeiro de 99 o frango está cotado em R$ 1,10 para um dólar variando entre R$ 1,70 e R$ 1,90. Nos últimos quatro anos, apesar de trazer inegáveis benefícios, o Plano Real manteve os preços internos do frango em níveis incompatíveis com os custos de produção, acumulando uma inflação nesse período de 44,38%.
Mesmo assim, ao contrário de outros setores, a avicultura brasileira não parou de gerar empregos. Aumentou a oferta de seus produtos, abasteceu plenamente o mercado interno e ainda exportou, gerando divisas importantes para o País. Tudo isso sem jamais depender de um único centavo de subsídio do governo.
A posição da avicultura brasileira e de sua entidade nacional - a União Brasileira de Avicultura (UBA) e entidades estaduais, setoriais representativas de classe - é de apoio à política de liberação de câmbio, como caminho correto para recuperar o desenvolvimento, a produção, a renda e a arrecadação tributária. Entendem no entanto os avicultores que as medidas agora adotadas devam ser acompanhadas de outros ajustes. Os juros internos não podem permanecer nos atuais patamares. São necessárias mudanças na área tributária, na política de financiamento à produção e ao comércio e na infra-estrutura de transporte. Só assim o setor produtivo brasileiro se colocará em igualdade de condições para competir com os demais países e para continuar suprindo o mercado interno em suas necessidades.

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