A realidade: Câmara e Senado anularam-se
Se o Congresso Nacional fosse operante e sem corrupção, seria o ideal, e mais que isto um dever. Mas essa casa de legisladores, hoje convertida em ''casa da mãe Joana'', onde todos ali dentro se locupletam, é mais fortemente marcada pela corrupção e pelo corporativismo, porque sua operância é baixíssima. Nem o epíteto ''rouba mas faz'' pode ser-lhe aplicado. Quando se diz que todos se locupletam, é porque o consentimento em auferir gordos ganhos e mordomias, e pouco realizar, é de todo o corpo parlamentar. Corrupção é também isto, porque se um deputado ou senador se instala no poder pelo voto do povo confiante e concorda com tantas benesses, e além disso - como frequentemente ocorre - atravessa mandato sem apresentar sequer um projeto de lei em benefício do bem comum, ele está cometendo um desvio da finalidade de sua atribuição. No dizer do senador Cristovam Buarque, que esteve em Londrina por estes dias e visitou este Jornal, os parlamentares estão sem causa: ''Não têm causa das reformas de base, da democracia, do socialismo''.
Se a existência da corrupção é um desastre, o senador afirma que pior ainda ''é a falta de sintonia entre a pauta do povo e a agenda do Congresso''. As duas Casas que o compõem anularam-se. Referindo-se ao caso de Renan Calheiros, ele diz que o Conselho de Ética está aí ''apenas para abafar''. Isto é realmente o fim dos princípios. As instituições já não se firmam nos alicerces da moralidade. Nesse reduto, salvadas as exceções (embora, como se disse, há uma cumplicidade silenciosa de todos quanto aos gordos salários e os exagerados benefícios individuais), está implantado não apenas um estado de imobilismo mas uma ditadura de poder, em regime que se proclama democrático.
A não ser que ocorra uma insurgência popular de grande proporção, o povo não acredita que reformas morais aconteçam a partir desse núcleo. Dos demais Poderes pouco pode-se esperar, porque o Executivo é interdependente e por isso com sua cota de cumplicidade, e o Judiciário age segundo a suficiência de provas, que escasseiam porque é difícil trazê-las à tona.
O sistema, em linha geral, opera em consonância, e os pontos de atrito são bem protegidos. Porque é da praxe. O postulado de Poderes harmônicos mas independentes não é bem uma verdade, porque há intrometimentos entre eles, embora no final das contas tudo caminhe para o acomodamento. A verdade é que o povo já não aguenta tanto desmando, tanta corrupção, tanta cobrança de impostos, tanta inoperância governamental e tanto deboche dos homens públicos sobre a população. O leão está adormecido, mas é certo que irá acordar!





