Histórias sinistras do último período ditatorial, no Brasil, têm sido contadas e recontadas, no mais dos casos a partir daqueles ainda vivos que foram perseguidos, presos e torturados, de famílias de militantes mortos e de historiadores de renome. Se para muitos será preciso escarafunchar arquivos secretos em busca de mais informações e elas existem sobretudo as que envolvem casos de violentas torturas, desaparecimentos e mortes, a geração pós-ditadura parece pouco interessada em tomar conhecimento desses fatos. É da sabedoria milenar que quem fica remoendo passado corre o risco de reeditá-lo, por trazer à tona amargos acontecimentos antigos, dessa forma reacendendo ódios e mágoas. Fosse plenamente verdadeira a crença inversa de que a memória de males acontecidos evita repetições, não haveria mais guerras no mundo e a humanidade viveria em sadia convivência. A história cinzenta da ditadura militar brasileira não dá garantia de que episódio idêntico não possa repetir-se, numa nação de instituições instáveis, onde 1/4 da população viceja na miséria e onde a corrupção campeia solta, onde os políticos se locupletam por conta de benesses, onde o governo sem juízo tange a cadeia produtiva com impostos cada vez mais altos, dessa forma centralizando renda e exaurindo a nação, e onde o sistema financeiro especulador faz a festa, sem freios que o detenham. Já se vive no País uma semi-ditadura, marcadamente na área econômica. Um dos aspectos negativos da ditadura foi ser ditadura, com todas as suas desastradas consequências, mas o espírito da violência imperava de parte a parte, na época. A esquerda armada era igualmente violenta, sequiosa de poder e sem projeto governamental. O comunismo, que estendia seus tentátculos ao Brasil, dominava meio mundo e visava detonar o capitalismo e inverter os papéis, tirando dos ricos para dar aos pobres. Este era o discurso. O resultado de uma possível vitória das esquerdas seria um socialismo ditatorial de Estado, que com toda certeza seria truculento, no estilo castrista de Cuba. É certo que a nação inteira aplaudiu o golpe das Forças Armadas, porque vivia-se momentos de inquietude e insegurança. Os militares no poder viriam a extrapolar no arbítrio, e eles próprios perderam-se na disputa interna de poder. A doença e morte do general-presidente Artur da Costa e Silva, por exemplo, foram consideradas muito estranhas. Não há inocentes no processo dito revolucionário de 1964, e será distorcer a história se a análise dos documentos secretos do Exército vier, apenas, ressaltar o lado das torturas e consagrar todos os militantes de esquerda como heróis. Os heróis eram alguns jornalistas, corajosos juristas e outros destacados idealistas que defendiam a plenitude democrática e não tinham ambições de poder. Alguns benefícios o regime ditatorial trouxe foram 20 anos de mando, com cinco generais-presidentes, e algo, obviamente, teria de ser feito mas é certo que o maior prejuízo foi a cessação das vozes das multidões, a castração de lideranças políticas emergentes, a atrofia da formação de líderes em futuro mais distante e a quebra do salutar exercício da democracia política e econômica. Que se faça o levantamento nos arquivos, mas que seja pleno e abarque toda a verdadeira história, autêntica e imparcial, e não apenas a contada a partir de um dos pontos de vista. Melhor que isto, contudo, seria a concentração de forças para reconstruir o Brasil instável e inseguro de hoje onde a miséria e a violência caminham paralelas e cada vez mais robustecidas para assim evitar que ideais adormecidos de ditadura retornem.

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