A questão é: diploma faz falta?
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sábado, 02 de novembro de 2002
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Luiz Inácio Lula da Silva, 57 anos, nascido em Garanhuns, Pernambuco, acaba de ser eleito presidente do Brasil com a votação mais expressiva de nossa história, 61,27% do total de votos válidos. Diferentemente dos 38 brasileiros que o antecederam no cargo, desde 1891, é o primeiro que não ostenta uma graduação acadêmica, tendo concluído apenas a quinta série do primeiro grau e se especializado como torneiro mecânico, a partir de um curso técnico feito no Senai. É um autêntico representante do ''chão de fábrica'' (como é chamado o conjunto de operários de nível operacional de uma indústria), que estará sucedendo, na posição mais importante do país, a marechais, generais, advogados, promotores, juízes, empresários e até mesmo a um médico, Juscelino Kubitschek, a um engenheiro, Itamar Franco, e a um sociólogo, Fernando Henrique Cardoso.
Será que a inexistência de um diploma universitário no currículo do presidente pode ser motivo para uma certa indignação ou apreensão da sociedade que ele, a partir de janeiro de 2003, começará oficialmente a administrar e a representar? Um exemplo bem sucedido, fora da seara política, parece indicar que não. Quem não admira a forma como Edson Arantes do Nascimento, o ''rei'' Pelé, conduziu sua magistral carreira no futebol e vem administrando sua vida pessoal e pública? Ou não se sente orgulhoso de vê-lo representando o país em eventos internacionais, sendo tratado com familiaridade e respeito por reis, rainhas, presidentes e primeiros-ministros por este mundo afora?
Ambos não tiveram a oportunidade de seguir o padrão de ascensão social tradicionalmente aceito, que é via formação acadêmica, mas, com certeza, saíram-se muito bem na ''escola da vida''. Se, por um lado, esse curso personalizado não dá diploma; oferece, por outro, muita experiência a quem se compromete verdadeiramente com seus objetivos e está sempre em busca, mesmo que não de maneira formal, do conhecimento e das informações que vão contribuir para alcançá-los.
Para o gaúcho Flávio Paiva, colunista e consultor de marketing em Porto Alegre, a questão da graduação acadêmica é muito relativa. ''Virou padrão'', comenta, ''hoje é preciso ter um diploma, mesmo que não seja relacionado ao trabalho específico que a pessoa desenvolve''. Fátima Abdul Hamil, da ADM, agência de recrutamento e seleção de recursos humanos, em Londrina, confirma que, para o mercado atual, ''formação é imprescindível, tanto para os cargos de nível operacional, quanto para os de nível executivo''. Isso porque, na avaliação dos empregadores, conforme explica Fátima, ''o ensino formal agrega valor ao conhecimento e sinaliza que o profissional não está parado, ao contrário, procura sempre se atualizar''.
Mas há exceções e, entre elas, destacam-se os profissionais e empresários de sucesso com perfil empreendedor. Flávio Paiva é um desses casos. Fez alguns anos de engenharia e, depois, de psicologia, não chegando a concluir nenhuma das duas faculdades. Interessou-se, então, por marketing, área em que começou a trabalhar por acaso. A partir daí, buscou o máximo de informações sobre o assunto, tornando-se um especialista na área. Retomou o estudo formal e, atualmente, cursa uma faculdade de Administração de Empresas, mas não se impôs um prazo para concluí-la. ''Informação é indispensável'', afirma, ''mas não é na faculdade que se vai obter aquela informação de mercado, relacionada à prática do dia-a-dia''.
A qualificação profissional, em sua opinião, ''é importante, importantíssima, mas não pode servir como único elemento de avaliação ou como elemento de exclusão''. Como em tudo na vida, segundo seu ponto de vista, ''há que se levar em conta o conjunto, o todo''.
Sob essa perspectiva, a análise do currículo de Luiz Inácio Lula da Silva se torna mais favorável, lançando luzes sobre seu ''perfil'' de líder nato, como explica Fátima. ''Ele amadureceu muito no decorrer desse longo processo de luta política, e o que não sabia, foi buscar'', comenta. Hoje, tornaram-se perceptíveis algumas características de seu jeito de ser, que revelam a vocação para dirigente. Entre elas, Fátima destaca ''sua capacidade de trabalho, de comunicação e de persuasão; sua persistência, poder de decisão e disponibilidade para a negociação''. O que ainda precisa ser avaliado é se saberá trabalhar sob pressão e, o mais importante, de acordo com Fátima, ''se terá aprendido a delegar, para o que ainda não sabe, por deficiência de formação acadêmica, seja possível encontrar numa assessoria qualificada''.


