A terceirização do serviço de coleta de lixo de Londrina tem sido enfocada por vários ângulos, contraditórios e sem mostrar à população - que paga - , o lado econômico-gerencial, e real, da situação agora enfrentada pela nova administração petista. Como ‘‘lixólogo’’ que acompanha há mais de 30 anos problemas de gerenciamento de lixo em nossas cidades, de início pensei que a administração de Nedson Micheleti (PT) iria finalmente buscar na municipalização do serviço o caminho para tirar Londrina da posição de cidade de preço/tonelada/coletada mais alto do País.
Pensava que os jovens técnicos que assessorariam o prefeito iriam partir para uma posição decidida de assumir a municipalização do serviço e mostrar à população que o gerenciamento público pode ser tão eficiente quanto a iniciativa privada, e com a grande vantagem de, sem visar lucro financeiro, resultar num serviço de menor custo. Que o ganho em eficiência e menor custo operacional sejam transferido à comunidade, com melhorias e novos investimentos.
Pensava que a ávida equipe da nova administração, sentindo de perto a situação, constataria através de um custo real (segundo calculei, a metade do cobrado pela Vega) que só com a economia resultante dos primeiros meses de municipalização da coleta, teria os recursos para adquirir a frota própria nova, estimada de 14 caminhões coletores.
Não imaginava que uma nova equipe, disposta a mostrar a que veio e com o aval da maioria dos londrinenses, pudesse escolher um caminho - apenas o mais cômodo - de não se dedicar a um gerenciamento eficiente e dinâmico, e aceitar continuar apenas fiscalizando a terceirização através de uma das empresas que há dezenas de anos monopolizam e se dividem na distribuição e loteamento do serviço de coleta de lixo no Brasil. E nunca por um custo real e justo...
Eu até pensava que a equipe de governo do prefeito Nedson, assediada para prestação de serviços pela Vega, pela Sanepar e outras empresas associadas da ABRELP (Associação que congrega as grandes empresas de coleta), pudesse assessorá-lo e alertá-lo: ‘‘Se o serviço interessa a essas empresas, é pois um serviço interessante de ser mantido, dá lucro... E por que não transferirmos então esse lucro em benefício da população londrinense? Vamos assumir a municipalização e mostrar que nossa administração pode ser também eficiente no gerenciamento do lixo.’’
Ah, mais assumir o serviço vai ser trabalhoso, difícil. Sim, mas nada impossível para uma boa equipe planejar e gerenciar. É um desafio que a comunidade espera que possa ser enfrentado com determinação e coragem.
Fiquei um pouco surpreso e comecei a pensar que a nova administração de Londrina
pudesse continuar terceirizando a coleta, quando soube que em São Paulo a administração petista cedeu às empreiteiras do lixo e, sem licitação, renovou os contratos que se encerravam... Isso que em São Paulo, a Limpurb da prefeitura mantém um serviço paralelo de coleta, mais ou menos 30%, e através disso tem condições de assumir o serviço em casos emergenciais (greve por exemplo) e de avaliar custos e produtividade. E o custo da prefeitura é a metade do custo das empreiteiras. Alegam que a produtividade é menor. Será que a falha não é o gerenciamento?
Penso dessa forma depois de, inclusive, quase assumir em janeiro último uma função na Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização - CMTU (cheguei a ter uma sala para me instalar), convidado pelo prefeito através do dr. Wilson Sella, para compor o gerenciamento na área do lixo. Estive em Londrina, conversei algumas vezes com o diretor-presidente da CMTU. Analisei a prestação dos serviços de coleta, do aterro, da limpeza urbana, a estrutura, e voltei ao dr. Sella. Senti nele uma preocupação muito grande com o problema. Uma determinação em acertar o melhor caminho. Me falou da necessidade de a CMTU criar rapidamente uma estrutura no setor. Mas senti que a terceirização teria continuidade.
Agradeci ao dr. Sella o convite e decidi continuar sendo secretário de Serviços Públicos em Arapongas, gerenciando nosso bom sistema de limpeza pública. E ainda aceitei os convites das prefeituras de Rolândia, Cornélio Procópio, Jandaia do Sul e Maringá para prestar assessoramento no saneamento dos lixões, na educação ambiental e coleta seletiva.
E por falar em Maringá: lá o serviço de coleta continua sendo municipalizado. E com maior eficiência agora na administração petista do prefeito José Cláudio. E foi lá que a Sanepar e inclusive uma empresa multinacional ouviram do prefeito José Cláudio (PT): ‘‘Querem coletar nosso lixo porque é bom negócio e dá lucro. Por isso mesmo, nosso serviço continuará municipalizado, e vamos distribuir esse lucro ao nosso contribuinte e reinvestir no setor.’’
- MAURO RODRIGUES MELLO é tecnólogo em saneamento, consultor na área de saneamento de lixo e secretário de Serviços Públicos da Prefeitura de Arapongas

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